A trilha para o lado paulista do Túnel da Mantiqueira, em Passa Quatro

Quando chegamos em Passa Quatro nós sequer sabíamos da possibilidade de chegar a um dos lados do túnel por trilha. As informações na internet não eram tão precisas e como contamos AQUI a sinalização e informação turística na cidade é praticamente inexistente.

Eu imaginava que o acesso ao túnel ficava em meio a “mato alto” e que somente pelo trem conseguiríamos acesso seguro. Descobrimos a trilha para o lado paulista meio sem querer, quando estávamos visitando a Garganta do Embaú, um incidente de relevo importante da Mantiqueira, localizada na divisa dos Estados São Paulo e Minas Gerais, caminho natural de muitos tropeiros e bandeirantes rumo a Minas Gerais. Foi palco de batalhas na Revolução Constitucionalista de 32, quando paulistas e mineiros travaram grandes batalhas na divisa.

Consta que na do região da Garganta do Embaú, incluindo o túnel, se deu o maior número de baixas do conflito, e este foi o único ponto em que as tropas paulistas não foram derrotadas pelas forças federais de Getúlio Vargas. De fato, no lado paulista do túnel vimos muitas placas rendendo homenagens aos combatentes, tidos como heróis. Já no lado mineiro não há grandes referências ao conflito.

Um mirante (ainda na Garganta do Embaú) oferece uma vista muito bonita do Vale do Paraíba e ao longe conseguimos avistar a cidade de Lorena-SP.

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Vista do mirante, lááá ao fundo vemos Lorena-SP

No local há uma imagem de Nossa Senhora Aparecida e uma espécie de altar, onde devotos colocam velas e rezam para a santa. É um local importante para os católicos, muito procurado por peregrinos que estão a caminho de Aparecida do Norte. A Garganta do Embaú, um caminho natural para os bandeirantes na época da mineração, acabou se tornando uma rota também para os romeiros, porém no sentido oposto, em direção a Aparecida, SP. Hoje trechos da antiga estrada usada por tropeiros e para escoamento da produção aurífera formam também o “Caminho Religioso da Estrada Real“.

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Apesar da vista bonita, o local está com muito mato alto e lixo – de toda espécie. De dia nos pareceu seguro especialmente pela quantidade de visitantes, mas a noite deve ser bem ermo… 

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O mato alto inclusive atrapalha quem quer fotografar

Depois que visitamos o mirante, já havíamos dado por terminado o passeio quando, de volta ao carro, observamos uma placa pequena indicando a estrada de terra e o túnel. Uma placa simples, não oficial, provavelmente colocada por algum morador. Havíamos deixado Catarina (nosso carro) no estacionamento de uma parada de estrada, próxima ao mirante e na dúvida fui até lá perguntar sobre a trilha. A senhora que estava no balcão da loja confirmou que a gente conseguia chegar lá a pé.

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Esta parada de estrada está ao lado do mirante da Garganta do Embaú. Logo depois dela tem a placa com a divisa dos Estados. A estradinha para a trilha fica justamente entre o mirante e esta parada. Na parada é possível estacionar o carro sem dificuldades (tem ampla área de estacionamento) e seguir a pé pela estradinha

É uma estradinha de terra bem tranquila, mas carro não passa até o final dela. No caminho passamos por poucas casas.

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Oi, Mantiqueira

Já estávamos andando há um tempo quando a estradinha começou meio que a sumir por dentre a copa de árvores. Olhando no Google Maps percebemos que já tínhamos passado da entrada correta. Voltamos e pedimos informação a uma criança que estava no quintal de uma casa. “ih, já passou muito”. Num dado momento nesta estrada a gente precisa pegar uma trilha que segue à direita. Neste ponto exato, do lado esquerdo de quem desce tem um marco da Estrada Real quase que totalmente coberto pelo mato, por isso não vimos. O GPS ajuda bastante mas não tem muito jeito, na dúvida o melhor é perguntar numa das poucas casas do caminho.

Dali em diante foi tranquilo. A trilha é em meio ao mato, porém são poucos os trechos de mato mais alto e em nenhum momento a gente fica confuso, dá pra ver claramente por onde ela passa. O único ponto de confusão é uma bifurcação onde algum morador colocou uma placa pintada à mão indicando o caminho do  túnel (à esquerda)- provavelmente cansado de receber tantos turistas perdidos em suas terras.

Aliás, parêntese para dizer o quão incrível deve ser a história desses lugares e pessoas que ali vivem (chegamos a cruzar com um senhor bastante velho que nos cumprimentou de maneira simpática e explicou-nos o restante do caminho): é uma região bastante isolada, de difícil acesso, num terreno completamente acidentado. Mas houve gente que chegou e se fixou, constituindo uma pequena comunidade. Muito provavelmente tem sua origem ligada aos movimentos migratórios em direção a Minas na época do descobrimento do ouro, e ali criaram hábitos, costumes e cultura muito próprios, muito dizendo da formação do próprio estado de Minas Gerais.

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Momento da bifurcação: à direita na foto um outro caminho provavelmente chega em alguma propriedade privada


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Trecho final. já bem perto do túnel

Eu fiquei muito feliz ao chegar no lado paulista do túnel. O lado mineiro a gente visitou com muita gente no passeio de Trem (contamos AQUI sobre o passeio) – ali estávamos só nós dois, num silêncio que só era cortado ao longe por algum barulho de roçadeira. O imponente túnel estava ali e era todinho nosso!

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A primeira visão do lado paulista do Túnel da Mantiqueira

Ainda existe a plataforma de madeira da “estação”. Ficamos por lá contemplando e descansado para a volta.

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Lá consegui sinal de internet e me pus a pesquisar mais sobre o túnel. Descobrimos que ali, ainda hoje, são vistas ruínas de casas antigas, que serviram como base para as tropas paulistas na Revolução de 32. Fomos procurá-las e elas estavam lá, completamente largadas e escondidas num terreno em frente à linha de trem, tudo coberto por mato. Impressionante como um local tão histórico e bonito pode estar tão descuidado!

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Ruínas, que segundo pesquisas, foram de construções que serviram de base para as tropas paulistas nos embates com os mineiros durante a Revolução Constitucionalista de 32


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A parte onde ficam as ruínas está protegida por uma cerca de bambu: algumas lonas e plantações indicam se tratar de uma propriedade privada. Tudo em mato, sem qualquer indicação turística ou trabalho de conservação

Vale muito a pena fazer a trilha para o lado paulista do Túnel! Infelizmente não fizemos para o lado mineiro por puro desconhecimento, mas tem jeito de ir a pé também. Não sabemos como, mas tem trilha também, com certeza perguntando a algum morador da cidade dá pra chegar sem dificuldade.

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DICAS para a trilha (lado paulista do túnel):

A sinalização turística em Passa Quatro é muito precária. O GPS quase sempre ajuda muito e acerta na maioria das vezes, mas na dúvida o melhor mesmo é perguntar aos moradores.

O melhor modo de fazer a trilha é deixar o carro no estacionamento da parada que tem na estrada, ao lado do mirante da Garganta do Embaú (bem na divisa MG-SP). Logo ao lado da parada, entre a mesma e a Garganta do Embaú, há uma estradinha de terra com uma placa bem rústica indicando o túnel. Seguir por ali.

Por segurança convém olhar no GPS, ele mostra direitinho onde entrar. A gente tem que virar à direita no momento em que surge um marco da estrada real à esquerda – porém ele estava coberto por mato e a gente não viu. Tem que ter muita atenção. A estrada é pouco frequentada, mas caso passe alguém pergunte se está no caminho certo ou tente alguma das poucas casas do caminho.

Deste momento em diante a trilha fica com mato um pouco mais alto, então bota fechada, calça comprida, bastão e repelente ajudam muito. Embora a trilha seja curta não há água no caminho ou possibilidade de comprar qualquer coisa, então levar água e um lanche é importante.

Uma vez localizando a entrada à direita não tem mais erro – o único ponto de confusão (a bifurcação que mostramos nas foto) está sinalizado.

A maior dificuldade da trilha é encontrá-la (rs). O caminho é quase todo tranquilo, sem maiores dificuldades técnicas.

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Vanessa Barreto

Psicóloga por profissão, viajante por paixão. Acredito na força dos encontros, na potência das palavras e na beleza das pequenas coisas. Viajar é um modo de existir e de se reinventar e por quê não dizer terapêutico também?

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2 Resultados

  1. Luiz Cláudio da Costa Pereira disse:

    Olá, muito útil e legal sua matéria, obrigado. Desde criança paro com minha familia ali naquela santa, nunca imaginei que logo á baixo estaria um monumento tão importante e ao mesmo tempo tão abandonado. Inclusice ali , perto da santa tem uma fonte do outro lado da pista que era muito bonita, com piscinas e banheiros…e hj tá tudo abandonado… Que pena.
    Esta sábado vou tocar numa festa ali no pé da serra, me hospedarei por perto e no domingo irei ao túnel com minha gata, ver se acho cartuchos e sinto fantasmas,rsrs. Só não quero encontrar cobras, dizem ter muitas por ali…

    Obrigado pela matéria.

    Instagram: @lcborracha

    • Vanessa Barreto disse:

      Que legal Luiz Cláudio, muito grata por você ter dividido suas lembranças conosco! Espero que você encontre a trilha e chegue ao famoso túnel! 🙂

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