Alagoa, a terra do queijo mineiro premiado na França

Atualizado em 09/05/19

Que a gente ama queijo não é nenhuma novidade – tanto que batizamos nosso blog por “O Queijo vai na Mala”. Em casa sempre tem queijo, comemos queijo praticamente todos os dias e em viagens sempre vamos atrás dos queijos locais. E claro, a gente leva sempre um com a gente, para o caminho, e volta trazendo os que encontramos por aí!

Sempre tem queijo na nossa vida. Seja na ida, na volta, em casa. Sempre tem! 😀

Há algum tempo ouvimos falar sobre Alagoa, cidade do Sul de Minas de menos de 3 mil habitantes que ficou conhecida após dois dos queijos locais ganharem prêmios na França e no Brasil (medalha de Bronze no Mondial du Fromage, em Tours, na França; medalha de Prata no III Prêmio Queijos Brasil; e medalha Super Ouro no III Prêmio Queijos Brasil). O “parmesão” de Alagoa (que lá a gente foi descobrir que não é bem um parmesão) é bastante conhecido por ser um queijo de alta qualidade e extremamente saboroso e nós ficamos curiosos para ver a cidade e claro, os queijos de pertinho. Tanto que Alagoa virou o QUINTO pouso do Roteiro Mantiqueira.

Já estávamos na estrada há muitos dias e contamos em nosso Instagram que iríamos para a cidade. Amigos e seguidores começaram a comentar: “ah, eu vi na televisão”. “ah é a cidade do Globo Repórter?” Que Globo Repórter??? A gente de nada sabia, mas exatamente no dia que pegamos estrada para iniciar o roteiro (sexta-feira, 13/04/18) passou um Globo Repórter dedicado especialmente aos queijos artesanais e Alagoa foi uma das cidades mineiras visitadas pela produção do programa, veja AQUI. Como na maioria das vezes estávamos em zona rural e/ou muito ocupados em bater perna, acabamos assistindo o programa no Youtube somente quando retornamos a Belo Horizonte.

Alagoa é uma cidadezinha pequenina bem simpática, típica do interior mineiro e bem guardada pelas imponentes montanhas da Serra da Mantiqueira. O terreno montanhoso provavelmente explica o relativo isolamento; inclusive, é um dos poucos municípios mineiros cujo acesso se dá ainda hoje por estrada não pavimentada, ainda que em boas condições

Pelo Facebook reservamos a Pousada Trilhas do Ouro. Chegamos em Alagoa ao final do dia, estávamos vindo de Passa Quatro e fizemos parte da Volta dos 80 de Itamonte (segundo Leonardo, o maior desafio de Catarina até hoje). Este trajeto consumiu boa parte do nosso dia (estrada de terra difícil). Contamos mais da pousada NESTE post. 

Na pousada conversamos com os anfitriões (Paula e Dalmo, muito queridos e receptivos) e já  mapeamos os próximos passos por lá. A cidade tem muitas famílias produtoras de queijo e nós queríamos visitar alguma propriedade para  ver de perto a produção do queijo.

Queríamos também ver a loja do Osvaldinho, Queijo D’Alagoa. Trata-se de um alagoense que começou a empreender vendendo o queijo pela internet. Nós conseguimos encontrá-lo pessoalmente na loja, e tivemos a oportunidade de tomar um café com ele e trocar um bom dedin de prosa, sem sombra de dúvidas este encontro foi um dos momentos mais marcantes da nossa viagem. Leia mais neste post.

Nós com Osvaldinho: na mão dele o famoso queijo e nós com o prêmio e a embalagem do queijo premiado

Visitamos também a Fazenda do Sr Jayr, o produtor que a equipe do Globo Repórter entrevistou. Diante das câmeras ele fez o famoso queijo e falou de sua experiência e lida na produção. Tomamos um café na casa dele, com o próprio, a esposa e o filho, uma experiência linda.

Catarina no Sítio do Condado, onde Sr. Jayr e família produzem de modo completamente artesanal o legítimo queijo d’alagoa

A área urbana de Alagoa é bem pequena e na rua principal várias comércios vendem o queijo. Mais focada no queijo vimos duas, mas nos mercadinhos locais é facílimo encontrá-lo também, com queijos dos mais variados produtores do município. Os preços são parecidos – em quase todos os lugares encontramos o Alagoa fresco por R$ 25 a peça de marroumeno 1kg e o Alagoa com 3 a 6 meses de cura por R$35 a R$45 o quilo, em peças inteiras de 5Kg ou pedaços.

São poucas as opções de restaurantes e é muito importante que o turista se organize para não passar perrengue. Paula, nossa anfitriã, já nos advertiu sobre isto assim que chegamos: a maioria dos restaurantes abrem apenas no horário padrão de almoço (entre 12 e 14 hs), então tem que ficar esperto.

Lá nós conhecemos:

Restaurante Sabor e Arte

Gustavo, o dono, é músico e todo o ambiente é decorado com motivos musicais e capas de discos de vinil. Aos finais de semana ele dá uma canja para os fregueses

Atendimento feito pelo próprio dono, é ele quem comanda as panelas. Na porta, um cartaz avisa do menu do dia, em geral um prato específico. Se o cliente não quiser ele se oferece para passar um bife e tenta sempre agradar. Comida simples, caseira e muito saborosa. Preços incrivelmente mais baixos do que o praticado aqui em BH

Restaurante da Zilda

Infelizmente não fotografamos este restaurante, mas assim como o do Gustavo, ele fica na rua principal, dificilmente não se vê. Zilda faz doces deliciosos e os vende numa mesinha na porta do restaurante por preços muito baratos: trouxemos uma barra de doce de leite maravilhosa para casa que custou apenas R$ 2,00.

Assim como no restaurante do Gustavo, ela oferece um prato do dia mas também dá um jeitinho se o freguês não topar. Chegamos um dia a noite em busca de janta e ela rapidinho fez uma linguiça caseira, omelete “com muito queijo” (nas palavras da própria) e ainda nhoque. Tudo muito simples mas com aquele gostinho de comida de casa. Come-se muito bem por lá.

Se a gente for pensar em atrativos, não há muito o que fazer do ponto de vista turístico dentro da cidade, a não ser ir atrás dos queijos. Porém para quem gosta de atrativos naturais aí a coisa muda bastante de figura. O Parque Estadual da Serra do Papagaio oferece trilhas e cenários belíssimos que agrada aos amantes da natureza, a gente conta mais NESTE post. 

A cidade é pura calmaria. Nós ficamos umas boas horas na praça só de olho na vida das pessoas. Inclusive numa tarde vimos por horas muitas pessoas na praça principal, diante da Secretaria Municipal de Saúde. Como era muita gente, ficamos intrigados. Perguntamos à uma moradora e ela explicou que estavam esperando o corpo de um rapaz que fora morto “com facada”. O corpo já estava a caminho de Alagoa para o velório e toda a cidade parecia estar bastante consternada e envolvida.

Numa cidade de menos de 3 mil pessoas, é claro que a morte de alguém – muito provavelmente conhecido por quase toda gente – gera comoção. Além disso, sabemos que os velórios acabam se tornando eventos sociais- é onde o povo se encontra. Mas no caso que presenciamos a comoção e portanto o interesse das pessoas era ainda maior: foi um jovem, e que morreu assassinado. Soubemos que devia fazer uns 20 anos que não se matava ninguém em Alagoa, a cidade é muito pacata e quase não registra crimes. Aparentemente, o motivo foi passional, uma briga de bar, algo assim.

Aquele pós-almoço na varanda do restaurante do Gustavo

Burrinho que carrega leite, muito provavelmente para produção de queijo: cena muito comum em Alagoa

Acompanhados por Dalmo, nosso anfitrião, fizemos ainda uma trilha que leva a um antigo túnel, o Túnel do Garrafão. Ele nos explicou como chegar até ele e a gente tentou sozinho, mas não encontramos o caminho de jeito nenhum. Mato alto, nenhuma sinalização. No dia seguinte ele foi nos acompanhando de moto e nos indicou o local correto, uma grande gentileza.

Dalmo e sua esposa, Paula, são os donos da Pousada Trilhas do Ouro, onde nos hospedamos em Alagoa. Ele nos levou ao Túnel do Garrafão, antigo túnel escavado por escravos em busca de pedras preciosas – fica dentro da área do Parque Estadual da Serra do Papagaio

E por fim fizemos a trilha para o Pico de Santo Agostinho. Esta foi fácil encontrar: o Gmaps ajudou bastante, mas tem algumas plaquinhas na estrada também, fica pros lados do Garrafão, região rural da cidade. Pra começar a trilha temos que atravessar uma porteira, batemos palmas e perguntamos ao dono das terras se poderíamos entrar e ele foi super simpático – a porteira parece mesmo se justificar apenas para evitar que animais saiam das terras, mas turistas são bem vindos. O início da trilha é sinalizado com placa e durante a subida existem outras, todas do Parque Estadual da Serra do Papagaio.

Na subida encontramos este simpático casal que estava acompanhado de uma guia, funcionária de uma outra pousada de Alagoa

Alagoa não é uma cidade que tem grande estrutura turística, mas oferece ao visitante aquilo que mais consideramos precioso numa viagem: uma experiência genuína. Lá é possível se conectar com as pessoas e experimentar um pouco do que é a vida real numa cidade de interior mineiro.

Claro que após o reconhecimento da qualidade do queijo local, muito em parte pela premiação do queijo e consequente divulgação do mesmo pela mídia, algo da cidade tem se modificado na tentativa de acolher o turista – as lojas de queijo, em especial a de Osvaldinho, já tem se estruturado para atender à tais demandas. Tanto que hoje o turista pode também ver de perto a produção do queijo e azeite local através da Rota do Queijo e do Azeite, um passeio oferecido pela loja. Mas é bem verdade que Alagoa continua oferecendo ao visitante a mineridade em sua mais pura essência: é na prosa com os alagoenses e nas andanças pela pequena cidade que a magia acontece! <3

Corredeiras e uma das várias estradinhas de terra de Alagoa

Catarina ficou assim ao deixar Alagoa

Praça cheia à espera para o velório do moço, que contamos mais acima

O melhor sempre fica pro final!!!

Mas e o tal do queijo, é bom mesmo? Sim, é bom. Bom não, é muito, MUITO bom! Não, não é só muito bom. É tipo dos melhores queijos que se pode comer na vida. Exagero? Que nada! Seja fresco ou maturado, cada queijo que a gente prova por lá é maravilhoso e surpreendente. E tudo ainda com aquele ar de rusticidade, de coisa genuína, com estruturas ainda muito incipientes ou inexistentes para explorar o produto que vem sendo cada vez mais alçado à fama.

Mas o que faz o queijo ser tão bom? Todo mundo tem alguma resposta: é o pasto! É o clima! São as montanhas! É a altitude! É o jeito de fazer! Enfim, é todo um conjunto de características e cultura local que foi se transformando e se consolidando até fazer com que o queijo dali ganhasse essa personalidade que lhe é própria. É claro que tem diferenças, é claro que a gente provou um queijo que a gente gostou mais que o outro. Mas aí está também o encanto: ir conhecendo esses detalhes, essas minúcias, essas pequenas competições saudáveis. Alagoa ainda deve ter uma longa estrada à frente buscando ser reconhecida como uma denominação de origem controlada para seu queijo, mas parece bem nítido que reúne todas as condições para se firmar como tal.

Quer visitar Alagoa?

Pois bem, nós só podemos dizer: VÁ.

Mas preste atenção em alguns detalhes:

  • A cidade é pequena (menos de 3 mil habitantes) e apesar de ter ficado famosa por causa do queijo premiado, ainda possui uma estrutura turística bem incipiente. No booking a gente encontra pousadas e lá na cidade a gente vê mais umas duas ou três mais simples. Para quem não abre mão de uma estrutura turística mais robusta, talvez compense mais fazer um bate e volta partindo de outras cidades maiores do entorno.
  • São poucos restaurantes também e tudo é MUITO, MUITO simples. Não vá esperando luxo porque não é isso que você verá.
  • Alagoa é lugar para descansar, conhecer e comprar o maravilhoso queijo e especialmente se CONECTAR com os moradores: nas prosas em cada canto é que a gente vive de fato uma experiência incrível. Se você é dos nossos e aprecia natureza, sossego, ficar um tempo no banco da praça espiando a vida passar e sair conversando com todo mundo que vê pela frente vá sem medo. Todos são muito acolhedores e amáveis. Para os amantes de atividades na natureza também tem muito o que explorar.
  • A gente saiu de lá meio com a impressão de que Alagoa não é cidade para apenas turistar, é cidade para viver, experienciar. Não é lugar para sair visitando rapidamente tudo, é local de se permitir uma conexão com a natureza, os costumes e a mineirice em sua forma mais pura.

    Pôr do sol visto da praça

Veja aqui outros posts nossos sobre Alagoa

Ah, Minas Gerais!

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oqueijovainamala

Um casal mineiro que ama viajar e conhecer novos lugares, mas acima de tudo busca experiências e novas histórias para ouvir e contar.

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8 Resultados

  1. Como Alagoa é linda. A foto de abertura do post ficou maravilhosa. Justamente a imagem que tenho das cidadezinhas mineiras. Deve ter sido muito gostoso pousar e poder explorar a região. Será que existe alguém nesse mundo, em sã consciência, que não goste de queijo? Eu sou um ratinho e fiquei morrendo de vontade de experimentar o premiado! Já imaginando comendo aos pedaços, no pão, com doce de leite, com goiabada, grosseiramente esfarelado por cima de uma macarronada! Adorei as dicas. Salivei!

  2. Juliana disse:

    Ahh, eu AMO queijo, acho que em outra vida fui mineira ou uma ratinha hahaha com certeza Alagoa é um destino que está na minha listinha.

  3. Paula Gabi disse:

    Vanessaaaaaa eu não canso de repetir o quanto este blog é maravilhoso e cheio de dicas acolhedoras! Estes dias mesmo em uma conversa com amigos do trabalho indiquei seu blog.
    Eu não conhecia Alagoa, nem sabia da reportagem no Globo Repórter e nem da premiação internacional do queijo, que loucura, logo eu uma super apaixonada por queijos!
    Onde consigo encontrar o queijo deles aqui em BH? Algum lugar específico dentro do Mercado Central?
    Big bjus e continue assim com este blog com jeito de abraço!

  4. flymaniac disse:

    Gente, que matéria deliciosa! hehehe. Deu até água na boca por falar tanto de queijo. E então legal quando conhecemos um lugar diferente assim, até entrar pra rota dos amantes de queijo, né? Amo queijo e anotei todas as dicas!

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