Como é a viagem de trem de Minas à Vitória

Eu já tava muito afim de fazer a viagem de Trem de Minas à Vitória e tanto fiz que consegui convencer Leonardo a me acompanhar. Aproveitamos um feriado prolongado para visitar Vitória e compramos a passagem de ida de trem. A volta foi de avião para otimizar nosso tempo.

O trajeto

O Trem da Vale parte diariamente as 07hs de Cariacica, na região metropolitana de Vitória, Espírito Santo. Chega a Belo Horizonte, Minas Gerais, por volta de 20:10.

No sentido oposto um outro trem parte da Estação de Belo Horizonte às 07:30 e chega por volta de 20:30 ao destino final, a Estação Pedro Nolasco, no Espírito Santo. Há também um trem adicional que faz o percurso entre Itabira e Nova Era, ambas em Minas Gerais.

Partimos de BH rumo à Pedro Nolasco, a estação final, que fica em Cariacica. São 29 estações ao longo do trajeto e o trem pára em cada uma delas para passageiros embarcarem e desembarcarem.

Mapa das Estações. Fonte: vfco.brazilia.jor.br

Comprando a passagem

Compramos nossas passagens pelo Site da Vale, a empresa que opera a ferrovia. O site é muito simples de usar, podemos escolher o vagão a a poltrona no ato da compra. Existem duas opções de tarifas, a executiva, no valor de R$ 105,00 e a econômica a R$ 73,00.

Eu queria ter comprado a Executiva, considerei que pelo tempo de viagem (são no total 13 horas dentro do trem) valeria a pena pagar mais por um maior conforto, mas como deixei pra comprar em cima da hora para um feriado prolongado só consegui poltronas na classe econômica.

Além do site é possível comprar diretamente na estação. Em Belo Horizonte, a Estação Ferroviária fica localizada na Rua Aarão Reis, 423. (Ao final deste post tem telefone de contato e horário da bilheteria).

O embarque

Quando a gente chega na estação é preciso trocar o voucher que imprimimos referente à compra online por um bilhete de embarque. Dois agentes fazem esta troca numa fila organizada na entrada da estação, o que agilizou bastante o processo.

Daí com o bilhete entramos já na fila que dá acesso à plataforma de embarque e qual não foi minha surpresa ao constatar que eu tinha ESQUECIDO MINHA IDENTIDADE! Estava sem nenhum outro documento de indentificação comigo! A sorte é que estávamos antecipados e moramos relativamente perto da Estação, então pegamos um táxi correndo, voltamos em casa e eu ressucitei de algum buraco do armário minha carteira de trabalho. Constatei que tinha esquecido a identidade em Juiz de Fora, na casa da minha mãe.

Leonardo fez bullying comigo, dizendo que era meio absurdo uma mineira quase perdendo o trem, pode uma coisas destas? Mas correrias e sufocos à parte, deu tempo e embarcamos!

Portanto, verifique seus documentos antes de sair de casa! Não faça como eu!

Minha carteira de trabalho, personagem fundamental nesta viagem, deu até “rolê” no Espírito Santo 😀

O trem

A disposição do trem é a seguinte: na parte da frente da locomotiva está o vagão restaurante/lanchonete. Atrás dele vem os vagões executivos e depois os econômicos, que são os mais numerosos. Tem banheiros na parte de trás de cada vagão.

Leonardo no caixa do vagão restaurante
Vagão restaurante: mesas para até 4 pessoas

Todos os carros possuem ar-condicionado e tomadas, TV´s, mesas de apoio e wifi (só funcionaram quando o trem estava próximo ou parado em alguma estação). Na classe executiva, as poltronas são mais largas, reclinam e tem sistema de som individual. Na econômica há bancos rígidos que não reclinam, embora não cheguem a ser desconfortáveis. A executiva é um pouco mais confortável e mais tranquila, mas não vimos tanta diferença assim; acho que a econômica compensa mais.

Todas as portas tem abertura automática e sensores de presença. Na entrada de cada vagão espaço para bagagens maiores e ao alto, espaço para volumes menores.

Vagão executivo: notem que do lado direito tem só uma fieira de poltronas, o que dá mais espaço
Vagão convencional

O vagão restaurante oferece almoço, em pratos individuais e também em marmitex, com uma única opção no dia e lanches.

Alimentação a bordo (e algumas confusões)

Pouco depois do trem sair um moço passou vendendo pão de queijo numa cestinha. Achei super fofo, mas estava sem fome e não comprei. Algumas horas depois o mesmo moço volta e anuncia que iniciará a venda do “marmitex“.

É assim: para almoçar existe a opção do marmitex do dia, mais barato e entregue na própria poltrona, então a gente nem precisa se deslocar ao carro restaurante para almoçar. Você compra uma “fichinha” na mão dele e troca na hora do almoço pelo marmitex – eles mesmo te entregam a “quentinha” na sua poltrona.

Carrinho de “lanches” – passa uma vez de manhã e uma à tarde oferecendo café, salgados e biscoitos

A opção do “nosso” dia era: feijão, arroz, farofa, salada de legumes e frango assado, por R$ 14,00. Eu estava mais inclinada à ir almoçar no vagão restaurante e escolher um outro prato (são 5 ou 6 pratos individuais à escolha, um pouco mais caros mas aparentemente melhores) mas o moço meio que “colocou o terror”, dizendo que o trem estava cheio e que provavelmente o vagão restaurante não iria comportar todo mundo e o marmitex poderia acabar. Era algo tipo, ou você compra logo e garante ou corre o risco de ficar com fome.

Compramos então o marmitex e ele disse que na hora do almoço o receberíamos em nossa própria poltrona. Ok. O tempo passou, uma pessoa e outra recebeu a comida e nada da gente. Perguntamos para o moço e ele disse que já tinha sido servido, que ele avisou em voz alta e que nós provavelmente estávamos dormindo (não estávamos) e que agora teríamos que pegar o marmitex no carro restaurante.

Chegando no restaurante vimos que, ao contrário da profecia castastrófica do moço, estava bem vazio e tranquilo. Morri de arrependimento de ter pedido o marmitex, poderia ter escolhido algo mais interessante direto no restaurante. Mas tá, pegamos o marmitex, ocupamos uma das mesas e aí veio a parte mais complicada: a comida era bem sofrível.

Marmitex do dia: feijão (dá pra perceber na foto o quão estava seco?), arroz, “salada de legumes” (nada mais era do que milho, ervilha, cenoura e tomate, certamente pré-congelados), uma sobrecoxa de frango (sem gosto) e farofa (destas de saquinho). Difícil!

Sou bem de boas e pouco exigente com comida, se tá limpo e gostosinho (nem precisa estar top não) eu fico bem feliz, mas o marmitex estava intragável. Tudo tinha o mesmo gosto de comida hospitalar. Comi um pouco só para não ficar com fome. Infelizmente joguei o resto fora, coisa que odeio fazer, mas não teve jeito.

À tarde fui novamente ao vagão restaurante para tomar um café e queria pão de queijo, mas tinha acabado. Acabei pedindo uma esfirra que estava seca. Enfim, não foi possível ser feliz com nenhuma comida dentro do trem, mas o café era até razoável.

Leonardo mais cedo conseguiu um pão de queijo – quando eu quis um, à tarde, já não tinha mais

A viagem como um todo

O vagão é bem confortável, e viajar de trem é mais agradável do que de ônibus. Embora a velocidade seja menor e consequentemente o tempo da viagem seja maior, a gente não vai dando tranco, nem sentindo tanto a movimentação. Isso faz com quem cheguemos ao final da viagem menos moídos do que numa viagem de ônibus (esta foi a minha percepção).

Área de rejeitos da mineração, vista da janela do trem

A poltrona embora mais dura só me incomodou mais ao final da viagem, quando precisei andar um pouco mais pelo trem só para “esticar as pernas”. Inclusive é possível fazer isto várias vezes ao longo da viagem e ajuda bastante a passar o tempo e movimentar um pouco o corpo.

O trem de fato percorre belíssimas paisagens, mas por causa do ar condicionado o vidro é todo fechado e parecia “sujo” ou manchado, de modo que a visão fica parcialmente prejudicada. Tipo, dificilmente dá pra fazer uma foto bonita pela janela do trem, ela inevitavelmente vai sair manchada.

A cidade de Santa Bárbara aos pé do maciço do Caraça

O trem é bastante movimentado – o fluxo de gente entrando e saindo nas diversas estações é intenso e eu achei bem legal ver tanta diversidade. Dava pra ver gente que tava viajando a trabalho, famílias inteiras que provavelmente estavam indo aproveitar o feriado, idosos, casais, muitas crianças… é um cenário dinâmico e eu gostei muito disto.

O desembarque

Já na saída da Estação Pedro Nolasco há uma aglomeração de taxistas que oferecem táxi aos gritos, alguns tentando pegar no braço dos viajantes, numa abordagem às vezes mais incisiva. O ideal é passar por eles a passos firmes, em geral eles abordam as pessoas que saem de modo mais lento e olhando o entorno como quem tenta se localizar.

Nós optamos por chamar um Uber já na área externa da estação. Mesmo sendo noite são muitas pessoas fazendo o mesmo. Fomos para a região de Camburi, em Vitória, e pagamos pouco mais de R$ 20,00.

Aquela aglomeração de pessoas à direita é onde rola o fuzuê de taxistas e motoristas em geral tentando pegar passageiros no peito e na raça

Algumas dicas

Eu gostei muito de ter feito a viagem. Embora tenha criado na minha cabeça um cenário completamente diferente, foi muito bom ter a experiência real de viajar de trem. Apesar do longo trajeto, cheguei até bem ao destino final, nada que uma boa noite de sono não te renove de novo.

Eu faria novamente a viagem considerando especialmente o custo-benefício: fica bem mais em conta do que avião e mais confortável do que ônibus, eu costumo enjoar em ônibus então já viu né? No trem me senti ótima.

Mas deixo aqui registrada dicas para ajudar a quem vai fazer a viagem e para eu mesma me lembrar delas caso faça-a novamente:

  • Quanto menor a numeração do vagão, mais próximo do carro restaurante você estará.
  • A diferença entre as classes econômica e executiva é basicamente a poltrona: mais larga e com possibilidade de reclinar, na executiva. Os vagões da executiva também são mais tranquilos, com menos pessoas transitando.
  • Comprando classe executiva, já estará mais perto do restaurante. Estes são os primeiros carros do trem, depois do vagão restaurante.
  • Comprando na econômica: os vagões 1 e 2, o que ficam logo atrás dos vagões executivos, me pareceram mais tumultuados, com muita gente transitando o tempo todo. Eu compraria entre o 3 e 5 . Não fica tão distante do restaurante e dá até uma distanciazinha boa pra andar e esticar as pernas.
  • Não sei se dá pra dizer que tem uma diferença importante na vista entre ambos os lados, fomos do lado direito do trem e vimos paisagens muito bonitas – mas sempre meio “enevoadas” pelas manchas da janela.
  • O ar condicionado é na maior parte do tempo MUITO FRIO, mas às vezes desligam-no para ajustar a temperatura, daí fica mais quentinho por alguns períodos. Mas no geral eu senti muito frio, então eu levaria um casaquinho.
  • Eu achei todas as comidas vendidas no trem bem ruins e vi várias pessoas marmitando, com comidas bem mais cheirosas e apetitosas do que as servidas lá dentro. Tinha gente com caixa térmica com bebida e tudo mais, farofando mesmo! Teoricamente é proibido entrar com comida no trem, mas não vimos qualquer problema nesse sentido, os funcionários não estão nem aí.Na próxima eu mesma vou levar minhas comidinhas!
  • Chegue cedo no embarque, para passar pela fila com calma e claro, confira seus documentos antes de sair de casa (kkkkkkkkkkkkkkk)

E no mais, faça uma boa viagem!

Trem da Vale – Vitória à Minas

Estação: Belo Horizonte 
Município: Belo Horizonte 
Endereço: Rua Aarão Reis, 423, Praça da Estação, Centro, Belo Horizonte/MG 
Telefone: 0800 285 7000

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Vanessa Barreto

Psicóloga por profissão, viajante por paixão. Acredito na força dos encontros, na potência das palavras e na beleza das pequenas coisas. Viajar é um modo de existir e de se reinventar e por quê não dizer terapêutico também?

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20 Resultados

  1. Adorei o relato. Eu gosto muito de viajar de trem, observando a paisagem e sacudindo menos que em um trajeto de ônibus. Que pena que não foram felizes na alimentação. Também levarei minhas comidinhas nesse passeio.

    • Vanessa Barreto disse:

      Melhor coisa Lucio! A priori é proibido embarcar com comida, mas muita gente, muita mesmo leva e come dentro do trem numa boa. Sábios são eles viu?

  2. Juliana disse:

    Van, eu quero muito fazer essa viagem também. Fiquei triste com o relato da comida, você acha que mesmo as servidas no restaurantes talvez não fossem tão boas assim?

    • Vanessa Barreto disse:

      Oi Ju!
      Olha, pela má qualidade do marmitex eu não esperaria muito da comida do restaurante sabe? Mas numa próxima vou provar até mesmo para tirar esta dúvida. Mas o marmitex nunca mais! Prefiro levar uma marmitinha minha mesmo ou até um sanduíche.

  3. Rafaela Mourão disse:

    Nossa eu também fiz uma imagem dessa viagem totalmente diferente do que você relatou!! Amei as dicas e saber as furadas para não cairmos nos mesmos problemas… Muito obrigada por compartilhar conosco!

  4. Débora disse:

    Tá aí uma viagem e experiencia que quero muito ter. Adorei as dicas de voces, pessoal! Beijos

  5. Dora disse:

    Deve ser super legal, cada vista linda pelo caminho!! O trem parece super lindo e confortável. Devia ter mais viagens de trem pelo Brasil.

    • Vanessa Barreto disse:

      Oi Dora!
      Conheço outras viagens de trem com fins turísticos, como Ouro Preto a Mariana, Tiradentes a São João Del Rey, Morretes em Santa Catarina e por aí vai. Não conheço outro trem no país que sirva mesmo como transporte de passageiros, se souber indique, queremos conhecer ! 🙂

  6. Paula Gabi disse:

    Oi Vanessa!!
    Fiz esta viagem ha muitos anos atrás, talvez 2008 não me lembro bem, mas odiei hahahahaha! Lembro que fomos a convite de uma tia que queria muito fazer o trajeto com o intuito de ver as paisagens, mas como você relatou não dava para ver muito bem do lado de fora. Lembro que as poltronas me incomodarem muito e que nas mesas do restaurante você só podia ficar se estivesse consumindo. Lembro que em alguns momento eram alertados sobre moradores jogando pedras no trem, fiquei bem assustada! Na volta eu e minha mãe não animamos voltar no trem não! Tive a esperança de ler seu post e encontrar alguma melhora no serviço e no trem como um todo. Uma pena né, podia ser uma viagem tão mais agradável e turística.

    • Vanessa Barreto disse:

      Menina, o trem foi todo reformado e está novinho, disso não podemos reclamar. Antigamente as janelas eram abertas e o pessoal conta que tinha a vantagem de ter uma visão melhor, porém já ouvi esta história das pedras também. Hoje o trem, além de bem moderno, é todo fechado por causa do ar condicionado. 🙂

  7. Maiara Barbosa disse:

    Nossa, Vanessa! Me lembro de você comentando que faria essa viagem quando veio aqui pra Mogi… e passou tão rápido! Pelo o que eu vi, achei bem confortável o trem e também o visual das paisagens no caminho é incrível, hein?!

  8. Aline disse:

    Que super útil esse post! Não sabia desse meio de ir até vitória por minas…arrasou demais na dica 👏🏾👏🏾

  9. Jessica Lopes disse:

    Eu já fiz essa viagem algumas vezes quando era criança, mas não me lembro muito! Senti uma nostalgia lendo esse post! Gostei muito da dica do casaco, porque morro de frio no ar condicionado! E com certeza levaria a minha própria comida! Parabéns pelo post!

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