Como elaboramos nossos roteiros de viagem

Habitualmente quem cria nossos roteiros é Leonardo. Vanessa não é muito boa com distâncias e mapas, tampouco com localizações, o que lhe rendeu na família o título de “bússola quebrada”. Ela finge irritação e na verdade acha bastante graça neste apelido. Tudo começa com a escolha de um ponto de interesse em especial, aquele lugar que um de nós (ou os dois) quer muito ir, e que acaba servindo de referência central para a construção do roteiro.

Os preparativos, pesquisas, expectativas, planejamentos, e tudo o mais que antecede a partida são parte importantíssima das nossas viagens. É quase uma pré-viagem, uma viagem em fantasia que, além de fazer com que a gente esteja sempre “viajando”…, permite que nos planejemos tão bem, evitando perrengues desnecessários, e que nos faz, às vezes, se surpreender ou decepcionar, levando a aprendizados e experiências incríveis. A cada dia, cada pesquisa e cada sonho as coisas vão se conectando e a viagem real vai tomando forma e sentimento. Tanto é que nossos roteiros quase sempre tem nome e seguem uma linha temática que de algum modo se relaciona metaforica ou poeticamente aos lugares que escolhemos para visitar.

esboços

Vários esboços de roteiros no Google Maps. Cada cor é um potencial roteiro. Para se concretizar, ainda há muito que pesquisar. Deslocamentos, custo, relações simbólicas…

O ponto inicial de todo roteiro é a definição do lugar de MAIOR INTERESSE, que um de nós dois quer muito conhecer. Uma pergunta que frequentemente nos fazem é “mas como vocês descobriram esse lugar?” Aí é meio na vida e na intuição mesmo, como é com muita gente. Indicação de amigos é uma coisa óbvia: como estamos sempre viajando, estamos sempre falando de viagens. Livros também podem fornecer referências, inclusive livros de literatura. Uma história pode simplesmente fazer você querer conhecer aquele lugar. Blogs e canais de viagem também podem dar dicas, bem como perfis em redes sociais, seja de amigos, colegas, conhecidos, conhecidos de conhecidos, etc. Nosso roteiro pela Serra Gaúcha foi construído tendo Cambará do Sul como ponto de maior interesse, isso simplesmente porque Leonardo tinha visto os cânions que caracterizam a cidade na TV (e olha que ele quase nem assiste TV; mas quando viu, ficou tão impressionado que nunca esqueceu, daí então pesquisou, anos depois, e descobriu onde era). O roteiro pelo Norte de Minas também se relacionava com uma história antiga de Leonardo. Às vezes é uma imagem, uma palavra, um fragmento de coisa que se conecta com a gente e inspira uma história e uma viagem. Uma vez que temos a ideia, o Leonardo faz um esboço de roteiro marcando pontos de interesse óbvios próximos num mapa do Google Maps, assim não esquecemos.

Temos vários “pontos de maior interesse” (e, portanto, potencias roteiros e esboços) e vamos escolhendo um por um para construir um roteiro. Habitualmente nos alternamos nesta escolha. Tomemos como exemplo nosso último roteiro, “Eu prefiro as curvas da Estrada de Santos”. A cidade de maior interesse era Paraty, escolha de Vanessa. A partir daí iniciou-se a etapa de pesquisa: abrimos o mapa (mapa mesmo, de papel) em cima da mesa da sala, o computador (de novo Google Maps!) e começamos a analisar os arredores. Identificamos nas proximidades outros possíveis pontos de interesse e nos dedicamos a pesquisar sobre eles. Aí vale tudo: guias, blogs de viagens, tripadvisor, etc e etc. Às vezes, não é um lugar específico, e sim uma região. Por exemplo, sul da Bahia (escolha do Leo). Pegamos o mapa e escolhemos três bases (Arraial D’Ajuda, Caraíva e Cumuruxatiba) por critérios variáveis, como potencial turístico, cultural, natural, preço… Nosso próximo roteiro será na Serra da Mantiqueira (Leo, também), e assim faremos, escolhendo umas três ou quatro bases.

roteiroparaty

Roteiro completo Serra & Mar ou “Eu prefiro as curvas da estrada de Santos”. Cada cor representa uma cidade-base. Todos os pontos de interesse/visitação de cada cidade já estão marcados. Uma das coisas boas é, às vezes, furar o roteiro que nós mesmo construímos. Tanto por surpresas positivas como negativas!

Alguns fatores pesam bastante na definição do roteiro. Mesmo quando viajamos inicialmente de avião (o objetivo de vida do Leo é ter tempo sobrando pra poder viajar só de carro ou barco), alugamos um carro e nosso roteiro se dá, em sua maior parte, por rota terrestre. Então estudar as estradas, as condições destas, a viabilidade e segurança (especialmente em regiões mais desconhecidas para nós) são essenciais. Gostamos muito de estrada, de curtir as paisagens, ir parando, conversando com um ou outro… O deslocamento é parte importante da nossa viagem. Contudo, apesar de gostarmos do caminho, é importante que: 1) o roteiro seja circular, ou seja, que a cidades base e pontos de interesse estejam numa ordem sequêncial, uma depois da outra, formando uma espécie de círculo pela região até voltar à cidade de origem. Do contrário, corre-se o risco de ficar num vai e volta que acaba aumentando muito o tempo de deslocamento e deixando o roteiro cansativo. 2) Que as distâncias entre um ponto e outro não sejam tão extensas, evitando trechos muito cansativos ou que nos obrigue a dirigir à noite (não é tão legal e, especialmente perto de grandes cidades, não é seguro).

catontheroad

Cat on the road

Outra questão é a hospedagem. Habitualmente escolhemos algumas cidades para serem nossas bases, ou seja, os locais onde nos hospedaremos e a partir daí, podemos visitar outras cidades nos arredores, se assim quisermos. Ficamos pelo menos três noites numa base para evitar dias seguidos daquele fuzuê desarruma mala, arruma mala, carrega trem pra lá, trem pra cá…

Alguns pontos que influenciam diretamente a escolha das nossas “bases”:

  1. Interesse: obviamente este é o maior fator. O quanto queremos conhecer aquela cidade?
  2. Número de atividades: se numa mesma cidade existem vários pontos a serem visitados ou atividades diversas que temos interesse é muito provável que ela seja uma base.
  3. Valor da hospedagem: Não é incomum elegermos hospedagem nos arredores da cidade que temos como foco, se a cidade em questão for muito cara. Tudo depende da relação custo-benefício.
  4. A qualidade da hospedagem: Às vezes a decisão entre duas potenciais bases que estejam próximas é feita levando em conta aquela casinha, apartamento ou chalé que nos parece mais funcional, bonito ou acolhedor, simples assim.
  5. Feriados e eventos: em geral em cidades muito turísticas feriados e eventos costumam jogar o valor das hospedagem lá no alto. Nestes casos ou fazemos alguma alteração no roteiro para tentar visitar a cidade em época melhor ou buscamos hospedagem nas cidades do entorno, menos famosas.
  6. Finais de semana: se no roteiro há cidades mais e menos famosas é mais interessante deixar para visitar as mais famosas em dias de semana, pois as hospedagens habitualmente ficam mais em conta e os pontos turísticos mais vazios.
  7. Condições climáticas: para algumas cidades ou passeios é essencial ter um tempo aberto. Muitas pessoas por exemplo se incomodariam em visitar praias na chuva e atentar-se para a previsão pode ser muito útil para fazer aquela mudança de última hora no roteiro.

Temos muito afeto por cada um nos nossos roteiros, tanto que os batizamos. Batizamos também todos os carros que alugamos pelo caminho e não é incomum que, durante a viagem, conversemos com ele. Em cada roteiro que montamos nos colocamos, ali estão sonhos, expectativas e muito investimento afetivo e talvez seja justamente por isto que viajar é algo tão especial para nós.

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Um dos nossos roteiros mais queridos (e, por que não, audaciosos), desbravando o médio sertão paraibano, pernambucano e alagoano.

Sabemos que muita gente viaja por intermédio de agências, ou contratando pacotes, o que certamente traz muita praticidade e, em alguns casos, até menor custo. Argumentam que assim conseguem aproveitar de forma mais intensiva as atrações de maior potencial turístico, que descansam mais por não terem de se preocupar com hospedagem, traslado, comida, etc., que fecham melhores preços de passagem e hotel por viajarem com grupos maiores. Possivelmente é tudo verdade. Mas a questão é que acreditamos que viajar pode ser uma experiência mais ampla. Uma experiência que a gente constrói de um modo muito pessoal, cheio de sentimento e afeto, cheio do nosso jeito. Uma experiência em que conhecemos pessoas e lugares inusitados, que dificilmente cruzariam nossas vidas de outro modo. Uma experiência com mais trampo sim, e alguns perrengues, mas que também nos ensina e fortalece. É uma escolha de cada um, claro. Não nos fechamos a nenhuma possibilidade, inclusive viajar de pacote! Mas por enquanto seguimos assim, com nossos roteiros construídos tijolo a tijolo, mão na massa, um pouco de sorte, Catarina on the road.

PS. Catarina é nosso carro.

PS2. O extinto Guia 4 Rodas, pelo menos em sua edição 2015, traz várias sugestões de roteiros, por todas as regiões do país. Hoje pode-se consultá-los no portal Viagem e Turismo da editora Abril. Naturalmente nunca seguimos um a ferro e fogo, justamente porque gostamos mesmo é de construir o nosso. Mas, podemos dizer que são bem bons e podem servir de referência.

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