Conheça Osvaldinho, o pioneiro na venda do Queijo Alagoa pela internet

Fomos conhecer Alagoa-MG em busca dos famosos queijos “parmesão” de Alagoa. Há poucos dias antes de nossa chegada um programa Globo Repórter havia levado ao ar uma matéria onde aparecia Osvaldinho, que hoje tem uma loja especialmente dedicada ao queijo Alagoa na cidade e vende para todo o país online. Foi dele o famoso queijo premiado na França!

Cês tem noção do que isto significa? O moço tem uma loja numa cidade de aproximadamente 3 mil habitantes, vende para todo o Brasil e conseguiu ter um queijo premiado na Europa! Claro que queríamos conhecê-lo, precisávamos muito ver de pertinho este mineiro!

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Que nós visitaríamos a loja isto era certeza! Estávamos tão ansiosos que logo em nossa primeira manhã na cidade tocamos para a loja, mas a encontramos fechada. Na porta, um simpático aviso já orienta o visitante sobre a rotina da loja, que é também a rotina da cidade.

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No café da manhã na pousada nossos anfitriões já tinham nos explicado um pouco sobre a rotina da loja e de Osvaldinho: ele trabalha no cartório local todos os dias em horário comercial e em geral vai à loja ao final do dia. Fora deste horário funcionários recebem os clientes, mas eventualmente a loja é fechada para irem aos Correios despachar os pedidos de clientes. Um casal de hóspedes comentou que conseguiu encontrá-lo por lá e foi aí que pensei: “ah, eu também quero”. Mandei uma mensagem inbox para o perfil da loja no Instagram falando que estávamos na cidade e que gostaríamos muito de conhecê-lo pessoalmente. Para nossa surpresa ele respondeu rapidinho: “claro, amanhã estarei aqui às 17 hs esperando por vocês”.

Chegamos na loja e lá estava ele, como combinado. Extremamente simpático e gentil, nos acolheu com um cafezim. Perguntou se já tínhamos provado dos queijos e convidou-nos a uma boa prosa: “sentem cá que vou contar tudo procês”.

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A bancada da loja com os queijos e ao fundo, na parede, certificados e premiações

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E assim, o “famoso” Osvaldinho se revelava diante dos nossos olhos. Claro que quem conta um conto aumenta um ponto, mas nós vamos tentar reproduzir aqui a história contada por ele.

Osvaldinho disse que nunca pensou em vender os queijos. Um dia estava passando na zona rural da cidade e encontrou um produtor. Durante a prosa, este comentou que as vendas estavam complicadas, estavam pagando muito pouco pelo queijo e ele estava numa situação financeira bastante difícil. Sensibilizado com a situação e sem entender o que estava acontecendo, já que conhecia bem o queijo e tinha ciência de sua qualidade, pensou que deveria fazer algo para ajudar.

Foi aí que teve a ideia de colocar os queijos à venda na internet. Na época era aquela internet discada, imaginem isso então na roça? E a verdade é que queijo sendo despachado por aí via Correios era uma ideia que parecia bem maluca para a época. Ele vendia num blog simples, e os pagamentos eram realizados via depósito bancário. Tudo muito precário ainda. Ele conta que um dia recebeu na loja um casal do Sul e o rapaz comentou: “Eu comprei com você na época do blog, minha esposa dizia, olha vai chegar tijolo dentro dessa caixa”. Ri muito ao relembrar.

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Aos poucos o queijo foi vendendo, mas queria mais, sabia que podia fazer muito mais. Começou as pesquisas e estudos online. Falou com um, com outro, fez contato com o Sebrae. Neste meio tempo um famoso especialista em queijos de São Paulo teve conhecimento do queijo que ele vendia e o experimentou. Foi aí que a coisa mudou drasticamente. “Ele me disse: rapaz, isso não é queijo parmesão, é um legítimo queijo artesanal mineiro da melhor qualidade”.

A partir deste contato, Osvaldinho entendeu que o queijo que sempre consumiu em sua cidade enquanto parmesão era, na verdade, algo muito maior! Era um queijo de personalidade própria, feito de modo completamente artesanal e que deveria então ser reconhecido como tal. Deste momento em diante começou um trabalho próprio para divulgar o Queijo d’Alagoa enquanto queijo artesanal mineiro, e não meramente parmesão. O sabor até lembra um pouco o queijo parmesão – nome que tecnicamente só pode ser dado aos queijos produzidos na região de Parma, na Itália; mas na verdade é bem diferente. A receita é parecida, trazida de imigrantes da região de Parma, no início do século XX, mas as adaptações dos produtores de Alagoa e o terroir da Mantiqueira dão características exclusivas ao queijo mineiro, fazendo dele um produto único.

A partir do diálogo com o Sebrae e outros contatos muitas coisas se desenvolveram: a marca, a ideia da loja e também a participação no concurso. É uma graça ouvi-lo contar esta história: “imagine, ir pra França, nem passaporte eu tinha”. E assim se deu: Osvaldinho, o “moço” de Alagoa,  foi para a França levando seu queijo que acabou premiado (medalha de bronze no “Mondial du Fromage”, em Tour, França, 2017; ainda naquele ano o mesmo queijo ganhou a medalha de prata no III Prêmio Queijos Brasil, e outro queijo curado e vendido por Osvaldinho, de forma menor, ganhou o prêmio Super Ouro neste mesmo concurso, o que equivale a dizer que foi eleito como o melhor queijo do Brasil no ano de 2017)

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Osvaldinho não produz queijo, embora tenha “umas vaquinhas”. Ele pega o queijo do produtor e faz um processo não menos importante: a cura. É este processo cuidadoso e delicado que dará ao queijo mais sabor, consistência e faz muita diferença no produto final. Então o queijo premiado levou o nome do produtor e dele: um produto artesanal feito a quatro mãos. Hoje ele tem um produtor parceiro de Alagoa que fornece a maioria dos queijos que ele cura e vende, e eventualmente faz parcerias com outros produtores para algumas séries específicas.

Para levar o queijo por aí, Osvaldinho mandou fazer uma mala com a logo da loja. A gente riu bastante ao constatar que ele também leva o queijo na mala.

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Osvaldinho também leva o queijo na mala <3

Enquanto conversava com a gente, um menino entrou na loja. Osvaldinho rapidamente se levantou e perguntou: “ô fulano, quer um pedacim de queijo”. Diante do positivo da criança, cortou uma fatia generosa e entregou ao menino, que saiu todo feliz da loja. “esse é o fulano, ele adora queijo”. Pouco tempo depois um grupo de meninos parou na porta da loja: Osvaldinho sai e troca meia dúzia de palavras com eles: “são os meninos da escola, eu tô patrocinando o uniforme do time de futebol”.

A gente ouvia as histórias e acompanhava as cenas encantados. O moço que levou o queijo mineiro ao exterior e voltou premiado é um moço simples, mineiro do interior, que trabalha todos os dias em outra função e ainda toca a loja. É marido, é pai, é filho, dá pedaços de queijos pros meninos da rua e senta pra contar sua história a dois forasteiros que em sua porta bateram.

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A “história” toda do queijo premiado e consequente sucesso e crescimento do negócio trouxeram sem dúvidas muitos admiradores, mas também há aqueles que se ressentem, como nos contou o próprio Osvaldinho. Alguns o acusam de ganhar dinheiro sem nunca ter produzido queijo e a gente até consegue entender: para aqueles que fazem o trabalho “bruto” pode soar meio estranho alguém ganhar tanta projeção, sem ser de fato “um deles”.  Mas fato é que Osvaldinho faz um trabalho inédito de valorizar o produto artesanal produzido em Alagoa, de dar-lhe nome, outros sabores (através da cura), de abrir-lhe um mercado antes impensado, o que, naturalmente, irá valorizar justamente o produto destes que hoje não pensam assim. O nome “Queijo D’Alagoa” hoje corre o mundo e todos os produtores e a cidade de um modo geral há de se beneficiar, incluindo aí também o turismo: hoje muitos vão à cidade atrás do queijo e assim, consomem nos comércios locais, pousadas, etc.

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Contando os “causos”

Achamos incrível a história do moço saído do interior que abriu as portas do mundo ao produto que sempre fora produzido ali, nos seus quintais. E hoje toda a cidade e demais produtores lucram com isto.

Saímos da loja emocionados e profundamente agradecidos por este encontro. A gente sabe muito bem que a melhor parte de qualquer viagem são os encontros que temos pelo caminho e ter conhecido Osvaldinho sem sombra de dúvidas nos fez voltar para casa ainda maior: e a mala voltou mais cheia também, com os queijos, claro!

Hoje o acompanhamos pelo Instagram e não vemos a hora de voltar!

Osvaldinho, só temos a agradecê-lo pela acolhida, prosa e café.

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Para comprar o famoso queijo entre no site Queijo D’Alagoa

 

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Um casal mineiro que ama viajar e conhecer novos lugares, mas acima de tudo busca experiências e novas histórias para ouvir e contar.

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3 Resultados

  1. Imensamente gradicido! Foi um prazer receber vocês aqui em Alagoa e podermos conversar! Depois da visita de vocês mais coisas boas aconteceram: veio o prêmio Melhores do Ano da Revista Prazeres da Mesa; recebemos três ônibus de turistas em 15 dias; Matéria no Jornal da Band e Matéria no G1 como Caso de Sucesso do Sebrae Minas; palestras no Festival de Gastronomia de Silvianópolis e de Tiradentes; no Sebrae Caxambu dia 10-09 e na Danone em outubro. Só produzir o queijo não basta. Isso Alagoa produziu por 100 anos. Mas divulgar esta riqueza e propagar a cidade é o que tenho prazer de fazer, é o que sei fazer, e faço com muito amor! É gratificante sentir e perceber que toda cadeia produtiva está melhorando e se ajustando. A cada dia estamos colhendo bons frutos! E este post é um destes frutos deliciosos de colher! Imensamente gradicido!

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