O Incrível Museu da Misericórdia, em Salvador

Eu nem sabia da existência deste museu, mas nosso anfitrião em Salvador, Gabriel Pinheiro, deu a dica: “não deixem de visitar o Museu da Misericórdia”. Como o que o anfitrião sugere a gente segue lá fomos nós conhecê-lo. 🙂

O Museu da Misericórdia foi fundado em 2006 e ocupa um palacete do século XVII no Pelourinho e foi nada mais nada menos do que o primeiro hospital de Salvador, fundado pela Santa Casa. Como estamos falando da primeira capital do Brasil, já dá pra imaginar a riqueza que encontramos por lá, não é mesmo? São 469 anos de história, com obras do século XVII até os dias atuais.

O acervo do Museu é composto por 3.874 peças, classificadas em diversas categorias – são móveis, quadros, peças de vestuário e objetos variados. O prédio foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em 1938 e está muito bem conservado.

A visita

O Museu funciona de terça a sexta-feira, das 8h30 às 17h30, aos sábados, das 9h às 17h, e aos domingos e feriados, das 12h às 17h. Os ingressos custam R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia), para estudantes, professores, idosos (acima de 60 anos) e pessoas com necessidades especiais. Para grupos é necessário agendamento prévio.

Toda a visita é guiada e achamos interessante porque são vários guias, então conforme as pessoas vão chegando na recepção, um guia é chamado e a gente entra e assim sucessivamente. Não há necessidade de ficar esperando formar grupo, vimos inclusive guia com apenas uma ou duas pessoas.

A Igreja da Misericórdia

A visita começa pela belíssima Igreja da Misericórdia, que fica anexa ao prédio. A igreja teve sua construção iniciada em 1654 e passou por várias melhorias, em especial a partir de 1722. Em sua arquitetura e obras artísticas vemos a presença dos estilos barroco, rococó e neoclássico.

Destaque para os painéis de azulejos portugueses, retratando a Procissão do Fogaréu e a Procissão dos Ossos, além de figuras de convite ou de guarda, datados do século XVIII.

Não há economia aqui – muito ouro e madeira maciça

Passamos por lá rapidamente e voltamos ao Átrio, uma área aberta e interna do palacete, que serve de comunicação para várias alas do prédio. A guia disse que voltaríamos à Igreja ao final da visita e poderíamos ficar por lá o tempo que desejássemos.

Seguimos então para a Sacristia, salão destinado a uso dos padres e autoridades da Igreja. É lá que eles se preparavam para as missas e compromissos religiosos na instituição. É impressionante a beleza e riqueza desta sala, com destaque para um móvel gigantesco em madeira maciça.

Mais ouro e madeira maciça
A vista da janela da Sacristia. Nada mal hein?

Um alçapão logo na entrada da sacristia dava acesso às enfermarias. Muitos escravos fugidos foram escondidos na Santa Casa e muito provavelmente boa parte foi alojada nestes cômodos.

De volta ao Átrio, passamos por uma das áreas mais bonitas do palacete, a Loggia, um espaço de inspiração italiana, formado por uma varada coberta e recortada por arcos. Através de uma bela escada que passa pela loggia, acessamos o segundo andar.

Tratar-se com esta vista é bem melhor! 🙂
A grossura do corrimão!

No segundo pavimento visitamos o Salão Nobre, o local onde se reuniam os mantenedores da Santa Casa. Novamente um luxuoso mobiliário se destaca e também as obras de artes nas paredes e no teto, que é todo pintado em perspectiva.

Os mantenedores eram figuras ricas e importantes da sociedade baiana que empregavam parte de suas riquezas como doações para a Santa Casa. Além de gozarem de muito prestígio social e político, com as doações garantiam também um lugar especial junto à Igreja Católica.

Haja ouro!

É também no segundo andar que visitamos a Farmácia, onde de fato veremos algo que remete mais a estrutura hospitalar. É coisa linda de viver as prateleiras antigas com os vidros de remédio, essas coisas que a gente hoje em dia quase só vê em fotos antigas e museus.

Foto de antiga enfermaria da Santa Casa de Salvador

Eu me lembro de aprender numa aula de história sobre as famosas rodas da Santa Casa, vocês se lembram disto? Antigamente as mães que por quaisquer motivos não queriam ou não podiam ficar com os bebês os deixavam nas rodas, que ficavam na porta das Santas Casas. Era só colocar a criança, girar a roda e alguém do lado de dentro a pegava. Assim a mãe podia doar seu filho sem ser reconhecida. Era comum que a criança fosse batizada com o nome do santo do dia em que foi deixada na roda.

Roda das Santas Casas, também conhecida por Roda dos Expostos. As crianças ali deixadas eram criadas pela instituição religiosa

Todas as salas do segundo pavimento se ligam por amplos corredores decorados com pinturas dos mantenedores. Neste momento a guia faz uma intervenção importante: ela mostra que quase não existiam mantenedoras mulheres, naquela época estes lugares cabiam aos homens. Contudo, as poucas que existiram, são sempre representadas em preto, pois eram viúvas.

Cada mantenedor tem um quadro em sua homenagem

Ou seja: uma mulher só poderia ser uma mantenedora se fosse viúva, caso contrário, este lugar deveria ser ocupado pelo marido. E é bem interessante notar também que estas mulheres aparecem bem masculinizadas, o que provavelmente era o único modo de poderem ocupar um lugar tão destinado aos homens.

Quadro de uma mantenedora

Passamos também por salas mais modernas, com muitas de obras de arte que retratam cenas da Paixão de Cristo e da Procissão do Fogaréu. FOFOCA: estas telas estavam antes do MAB (Museu de Artes da Bahia) e a Santa Casa entrou na justiça para obtê-las de volta, leia a treta aqui.

Novamente de volta ao primeiro andar, vemos o primeiro carro movido a gasolina que chegou à Bahia. De lá podemos voltar à Igreja, conforme prometido pela guia ao início da visita.

Ao alto da Igreja existe uma ala bem interessante – trata-se de uma espécie de mezanino onde as moças assistiam à missa. Na época as famílias que por qualquer motivo precisassem viajar ou se ausentar de casa por período mais longo poderiam “deixar” as donzelas aos cuidados da Santa Casa. Elas ficavam reclusas, mas podiam assistir às missas deste mezanino. Lá ficavam “protegidas” dos olhares da sociedade – em especial, dos homens.

Mezanino das “moças”

A visita não é muito longa, e dura em média 1 hora, a depender do ritmo do grupo. O prédio é lindo e de uma riqueza histórica sem igual. Adentrar o Museu da Misericórdia é reviver uma parte importante da história da Bahia e consequentemente, do nosso país. Visita super barata e extremamente rica! Imperdível!

Museu da Misericórdia

Rua da Misericórdia, Pelourinho. Salvador-BA.

Site: Museu da Misericórdia

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Vanessa Barreto

Psicóloga por profissão, viajante por paixão. Acredito na força dos encontros, na potência das palavras e na beleza das pequenas coisas. Viajar é um modo de existir e de se reinventar e por quê não dizer terapêutico também?

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11 Resultados

  1. Nossa que achado MARAVILHOSO! Acho demais quando essa surpresa acontece!
    Uns anos atrás deu overbooking e acabei passando 1 dia na cidade do México. Sem planos passeamos próximos do hotel. Um taxista falou vamos conhecer as pirâmides? Eu pirâmides? Chichen ora a ta MUITO longe, a gente pega o vôo no fim da tarde.. O motorista: estas são a 40 minutos daqui. Eu nunca tinha ouvido falar e foi um dos MELHORES passeios da minha vida..

    • Vanessa Barreto disse:

      Puxa Cintia, que legal a experiência que você teve, agradeço demais por compartilhá-la conosco. Concordo demais contigo, as melhores experiências são as que a gente não espera.

  2. Cada vez mais apaixonado por Salvador, Vanessa. Coisa que mais gosto de fazer são esses passeios tão cheios de história, arquitetura, arte e cultura. Dica maravilhosa!

  3. Paula Gabriele disse:

    Oii Vanessa! Já fui algumas vezes a Salvador e também não conhecia este museu, que fantástico! E nem sobre as rodas da Santa Casa eu sabia! Post riquíssimo! Parabéns!

  4. Fabiana disse:

    Adoramos conhecer mais desse lugar! O post está completo e cheio de fotos lindas. Já queremos ir! Post mais do que salvo!

  5. ana Ligia disse:

    Me emociono vendo seu Post!! Eu amo Salvador e como aquela cidade é cheia da nossa história!! Todo mundo devia ter a oportunidade de conhecer esse museu e tantos outros por lá!

  1. 25 de maio de 2019

    […] Dos museus da região do Pelourinho nós escolhemos visitar o incrível Museu da Misericórdia e falamos dele neste post. […]

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