Porque viajar pode ser terapêutico

Não foi sempre que entendi viajar enquanto um ato terapêutico. Na verdade comecei a tomar gosto pelas viagens bem mais tarde, acredito que muito em parte por ter assumido liberdade financeira e pessoal somente após os 25 anos – até então não entendia que, mesmo sem grana, poderia viajar. 

O “click”

Lembro-me como se fosse hoje do momento em que tive o “click”: eu havia acabado de me mudar para Belo Horizonte, estava pela primeira vez na vida morando sozinha (algo que sempre quis), havia passado num concurso, tudo caminhava bem mas eu estava insatisfeita. Tinha aquele ponto que ainda era de incômodo e eu não sabia muito bem o motivo.

Uma amiga me chamou para um mochilão pelo norte de Argentina e na travessia de Mendoza para Santiago (Chile) em meio às cordilheiras, eu parei por um momento apenas para observar. No início da subida passamos por uma casa e lá do alto ela era absurdamente minúscula. A cordilheira, por sua vez, imensa! Naquele momento eu pensei: “Céus, como eu sou pequena neste mundão, como meus problemas são pequenos em meio a tudo isto”.

Com minhas amigas e companheiras de Mochilão, na estrada subindo as cordilheiras (Divisa Argentina/Chile). Foi lá do alto que tive meu primeiro “click” numa viagem. DEZEMBRO/ 2010.


Voltei desta viagem muito diferente, enxergando a vida e o que até então considerava “meus problemas” de outra forma. Sempre que me via em meio aos meus pensamentos confusos eu me lembrava das cordilheiras e me sentia apaziguada. Em minha mente sempre voltava o pensamento: “o mundo é muito maior do que eu”. E ele era tão maior que a partir dali eu nunca mais parei: viajar virou uma necessidade, um tratamento

Tratamento?

Tratamento do que exatamente? Bem, não sei se vocês vão concordar comigo, mas viver tem lá suas dores e delícias. Muito dificilmente uma pessoa passa pela vida sem sofrer em algum grau, seja por questões práticas (falta de dinheiro, violência, problemas de saúde, etc) ou mais subjetivas (angústias e sofrimentos mentais variados). Sofrer faz parte da existência humana tanto quanto ser feliz. E eu sou humana, sofro, sou feliz também, com qualquer outra pessoa.

No mesmo mochilão, diante do majestoso Aconcágua, Mendoza, Argentina. DEZEMBRO/2010.


Ao longo da vida cada sujeito vai encontrando suas formas de tratar o sofrimento – algumas são bem funcionais e positivas, outras nem tanto. Aqui entro num terreno um pouco mais complexo, que caberia num outro post. Por ora quero aqui destacar apenas que o simples ato de viajar foi um dos modos que encontrei para “me tratar”. Certa vez ouvi em algum lugar: “A arte nos salva da vida” e achei tão verdadeiro! A vida tá aí, ela é nua e crua, às vezes dura e se não encontramos alguns apoios, subterfúgios, portos seguros fica mesmo muito difícil seguir adiante. É aquele colo quente em dias frios, sabe?

Vou elencar aqui alguns dos benefícios do viajar enquanto ato terapêutico, em minha percepção:

Descansar

Aqui tô pegando viagem enquanto algo muito básico mesmo, considerando aquele momento em que você tira férias e pode abrir mão do despertador. Não temos horários certos, dá pra dormir mais, ler mais ou fazer mais qualquer coisa que se goste e falte tempo nos dias comuns. Mas para algumas pessoas, ficar de férias em casa implica viver parte da mesma rotina habitual, inclusive com muitos afazeres da casa. Viajar quebra esta rotina e consequentemente nos tira um pouco das obrigações que cumprimos todos os dias. 

Um dia apenas de bobeira, curtindo um momento de descanso nos jardins da Pousada Chácara da Dinda, na Cidade de Goiás. OUTUBRO/2018.

Ampliar nossa visão de mundo

Viajar nos permite experienciar novas vivências: uma nova paisagem, uma comida diferente, um clima ao qual não estamos acostumados. Coisas muito simples viram grandes novidades e isso exige de nós, tanto do ponto de vista afetivo quanto cerebral. Precisamos nos reconfigurar para aprender a andar numa nova cidade, por exemplo. E nestes momentos vários “clicks”, como o que aconteceu comigo na divisa Argentina/Chile, podem surgir. A gente sai da vida do dia a dia, do nosso bairro, cidade, trabalho, etc e tem que se virar num lugar novo.

Do topo de uma montanha tudo é muito diferente! Pico de Santo Agostinho, Alagoa, Minas Gerais. ABRIL/2018.

Ampliar nossos círculo de relações

Viajar é sempre uma oportunidade de conhecer pessoas e estabelecer novas relações. As vezes isso acontece nos momentos em que menos esperamos, basta estar aberto. Não tô dizendo somente de conhecer pessoas que ficarão para sempre em nossas vidas (mas se isso acontecer, melhor ainda) digo também de todos os encontros que temos pelo caminho e nos marcam. Muitas vezes uma única conversa nos traz um imenso aprendizado, seja pela palavra ou até mesmo pelo afeto que o encontro nos despertou.

Com os amigos Alan, do @gironomapa e Maiara do @meudestinoelogoali. Amizades que começaram pelo Instagram e renderam belos roteiros, encontros e experiências incríveis! MOGI DAS CRUZES, JUNHO/2018.
No mochilão que conto no início do post, com minhas amigas, um Canadense e um Italiano comemorando aniversário da Fran (a amiga de vestido colorido), comendo doce de leite, no Hostel onde estávamos hospedadas. MENDOZA/ DEZEMBRO, 2010.

Possibilitar ressignificações

Viajar é sair da zona de conforto e é muito mais fácil a gente ampliar nossos pensamentos e possibilidades subjetivas quando estamos desapegados da rotina diária – no cotidiano a gente às vezes faz tudo tão no piloto automático que fica mesmo mais difícil enxergar novas possibilidades. É como se a gente conseguisse ver uma mesma “coisa” por outro ângulo sabe?

Minha primeira vez numa caverna. TERRA RONCA, GOIÁS, OUTUBRO/2018.

Permitir fazer algo novo

Justamente por estarmos mais abertos e com novas oportunidades é muito mais comum que nos lancemos em novos desafios quando estamos viajando. Ainda que em sua cidade tenha uma estação temática de esqui é bem mais comum que você queira experimentar a atividade se estiver num local de fato com neve, onde esquiar faz parte da cultura local. Viajando a gente escuta novos sotaques, idiomas, palavras, expressões, se permite!

Registro antes de iniciar minha maior aventura em montanhas até então: Pico do Papagaio em Aiuruoca, Minas Gerais. JUNHO, 2019.

Viajar sem dúvida é um dos meus tratamentos na vida. Viajando eu amplio minhas conexões, aprendo, cresço e sempre volto para casa maior, seja lá qual for a viagem. Viajar é de fato um ato MUITO terapêutico para mim.

É por isso que eu sempre recomendo a todos: viaje. Como der, do jeito que der, pra onde der. Apenas vá.

Algumas coisinhas a mais

Esta próxima foto é meu xodó: logo no início do mochilão (início do post) seguimos para o primeiro destino mega animadas e chegando na rodoviária de Resistência (Chaco, Argentina) descobrimos que simplesmente não havia mais passagens disponíveis para Salta, nosso próximo destino . As mochileiras não contavam com este pequeno detalhe e só pudemos embarcar na manhã seguinte. Paramos para registrar o momento e hoje esta foto é motivo de muitas risadas e boas recordações. 😀

Deu ruim
Das coisas que a gente só vê saindo de casa: dois arco-íris na cachoeira. MAMBAÍ, GOIÁS, OUTUBRO/2018.

Leia também:

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A Prática Japonesa do Banho de Floresta


Conheça também o blog Cores do Mundo, onde a Mallê conta de suas andanças acompanhada do filho Beto: uma família em busca de uma vida nômade, simples e com mais amor e sentido. Eles mostram como ninguém o quanto viajar é um ato terapêutico também. 🙂

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Vanessa Barreto

Psicóloga por profissão, viajante por paixão. Acredito na força dos encontros, na potência das palavras e na beleza das pequenas coisas. Viajar é um modo de existir e de se reinventar e por quê não dizer terapêutico também?

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