Roteiro: Cerradão Goiano ou Viagem ao Centro do Brasil

Era a minha vez (Vanessa) de escolher o destino principal do roteiro. Neste post já contamos como construímos nossos roteiros de viagem: sempre partimos de uma cidade principal, aquela que um de nós dois quer muito conhecer, e a partir dela vislumbramos os arredores, e por ai vai.. (clica lá no post para mais detalhes).

Eu já queria há tempos conhecer Brasília. Sempre achei que não fazia sentido ainda não ter conhecido a capital do país. A ideia de uma cidade completamente planejada e cheia de obras de Niemeyer sempre me encantou, eu precisava ver esta cidade de perto.

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Uma parada na divisa Goiás/ Distrito Federal para verificar se estávamos no caminho certo: nenhum dos GPS´s funcionaram neste momento

Eu, Leonardo, também queria conhecer Brasília, por motivos semelhantes, essa coisa de ser a a capital, o centro de poder político, o museu a céu aberto de Niemeyer. Mas também sempre achei a cidade meio descontextualizada de tudo, um lugar no centro do país, sertaozão, não haveria nada perto que permitisse a construção de um roteiro. Dizia que conheceríamos a cidade numa oportunidade, como um evento, congresso ou coisa assim, algo que justificasse a viagem. Pois bem, descobri que estava muito, muitíssimo enganado.

A história começou a mudar quando, casualmente, me deparei com esta postagem: http://www.curtamais.com.br/brasilia/22-lugares-nos-arredores-de-brasilia-que-deixam-no-chinelo-muitas-viagens-ao-exterior. De fato, só o post já fornecia um roteiro pronto, e não exagerava ao compará-lo com viagens internacionais: há destinos de fama internacional entre turistas, como a Chapada dos Veadeiros ou o Parque Nacional das Emas. A partir daí me animei, bastava eleger os pontos de maior interesse e que estivesses próximos o suficiente para caber no roteiro.

Bom, mapa na mão, Google maps aberto para cálculo da distância e do tempo e muita leitura de blogs de viagem, começamos enfim o processo de pesquisa e é claro que a Chapada dos Veadeiros entrou logo. Leonardo adora destinos naturais e seria esperado que a chapada fizesse parte do roteiro. Pela quantidade de atrativos ela ocupou sete noites do nosso roteiro (inicialmente seriam 6, mas descobrimos que o airbnb daria desconto a partir da sétima noite, o que faria a última sair praticamente de graça).

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O portal de entrada de Alto Paraíso de Goiás, também conhecido por “disco voador”

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Foto clássica no marco do Paralelo 14, o mesmo que passa por Machu Picchu

Porém a viagem de BH à Alto Paraíso de Goiás é longa (em média 12 horas) e só poderíamos pegar estrada na sexta a tarde, ainda trabalharíamos pela manhã. Então tivemos a ideia de pernoitar na cidade mineira de Paracatu: pesquisando descobrimos que ela era uma cidade histórica e já nos animamos em conhecê-la. Dormimos uma noite em Paracatu, conhecemos a cidade no sábado de manhã e após o almoço, seguimos para a Chapada dos Veadeiros.

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Paracatu: o que poderia ser somente uma parada para pernoite virou um novo destino – e que valeu muito a pena!

 

Decidimos colocar a chapada no início do roteiro por uma questão óbvia: conforme a viagem se desenrola vamos ficando mais cansados e sabíamos da exigência física que teríamos por lá. Escolhemos um Airbnb em Alto Paraíso de Goiás considerando basicamente como principal critério o preço. Seriam 07 noites num mesmo pouso, onde passaríamos a maior parte do tempo na rua, então gastar muito em hospedagem não era uma opção.

Da Chapada dos Veadeiros seguimos para o Parque Estadual de Terra Ronca. Leonardo  achou-o relativamente próximo à Chapada e descobriu que lá abriga um dos maiores complexos de cavernas da América Latina e pronto, bastou para que Terra Ronca entrasse em nosso roteiro. Por ser um local muito isolado e de poucas opções de hospedagem, lá pagamos o valor mais caro de nossa viagem numa pousada simples, onde ficamos por 02 noites.

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Diante da “boca” gigante da caverna Terra Ronca I

 

A pequena Mambaí também figurava no post que citamos e, apesar de aparentemente não ter tantos atrativos (cavernas e belas cachoeiras, o que já teríamos visto na Chapada e em São Domingos) e estar com estrutura turística incipiente, acabou entrando no roteiro porque estava no caminho entre Terra Ronca e Brasília, evitando assim longos trechos de estrada. Conseguimos um hotel pelo Booking com ótimo custo benefício e, definitivamente, não nos arrependemos de incluí-la no roteiro.

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Cachoeira do Funil, em Mambaí, um dos locais mais procurados e visitados. Em manhãs de sol o visitante pode ter a sorte de ver um arco-íris dentro da cachoeira

 

Mambaí foi nosso último destino “natural” neste roteiro. O próximo já seria Brasília, inaugurando a etapa mais urbana da viagem. Brasília inaugurou também nossa experiência na plataforma Couchsurfing. Eu, Vanessa, sempre gostei da ideia da troca solidária existente no site: a gente se hospeda gratuitamente na casa de um morador local e abrimos também nossa casa. (Embora essa reciprocidade não seja obrigatória, quando você é hospedado e se sente acolhido se sente muito impelido a fazer o mesmo). Leonardo ainda via com alguma desconfiança a ideia de se hospedar na casa de um estranho, mas conversa vai conversa vem ele acabou cedendo. Escolhi nosso anfitrião a dedo, li bem o perfil e percebi que tínhamos interesses em comum. Pedi hospedagem e tive a sorte de ser aceita. Uma experiência linda!

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Realizando um sonho: chegando à Capital Federal

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Com Edson e Hugo, nossos anfitriões em nossa primeira experiência pelo Couchsurfing. Os braços abertos dos “meninos” (como carinhosamente os chamávamos) simboliza o acolhimento. Cês tem noção de que eles abriram a casa deles pra gente sem nunca sequer terem nos visto antes? (Destas experiências que fazem a gente acreditar que o mundo tem jeito sim)

 

De Brasília seguimos para a cidade histórica de Pirenópolis e de lá para Cidade de Goiás, que foi a primeira capital do Estado. Enquanto a primeira já tem uma estrutura turística mais consolidada, a segunda está neste caminho. Gostamos muito de cidades históricas e não poderíamos deixar de conhecer mais da história de Goiás, neste roteiro.

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Um dos vários “mascarados” que ficam espalhados pela cidade de Pirenópolis

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Ponto alto de nossa passagem pela Cidade de Goiás, o Museu Casa de Cora Coralina. Emocionante!

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As doceiras da Cidade de Goiás são famosas. Estávamos passeando pelas ruas quando Leonardo disse que ali era a casa da Dona Augusta, a doceira que eu mais estava interessada em visitar. Já rumei pra lá

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Rumei…

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E entrei! 😀

Finalizamos na capital do Estado, Goiânia. Leonardo estava meio reticente em incluir a cidade no roteiro, mas eu insisti: como conhecer o Estado de Goiás e não visitar a capital, se já estaríamos por lá?

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Em Goiânia alugamos um Airbnb num prédio alto, no último andar. Olha aí a vista da nossa janela <3

Ao todo rodamos 4817 kms com nosso carro, Catarina.

Nesta viagem, que durou 25 dias, visitamos grandes centros urbanos, locais completamente isolados, cachoeiras, parques nacionais, cavernas, cidades históricas. Estivemos em locais bem turísticos e em locais pouco visitados. E nos hospedamos em hotel, pousada, airbnb, na casa de “desconhecidos” pelo couchsurfing. Digamos que foi um roteiro bastante diversificado, onde pudemos experimentar um tanto de experiências novas, bem do jeito que a gente gosta! (E este foi também o nosso roteiro mais audacioso em distância, Catarina nunca havia percorrido antes tantos Kms em tão pouco tempo).

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O nosso percurso – a kilometragem total acabou sendo bem maior, por causa dos bate/volta e passeios que fazíamos

E aquela história, de que eu, Leonardo, achava Brasília meio longe de tudo e fora de contexto? Bom, ficou claro o engano, né? Mas, mais do que perceber que havia sim muitos lugares a se conhecer e visitar, durante a viagem fomos percebendo uma coisa muito forte que dava liga à viagem, que unia um ponto ao outro e fazia com que a experiência parecesse ter um sentido maior: o cerrado, mais do que bioma, vegetação, coisa de geografia que a gente estudou e esqueceu na 6ª série, era alma, vida e morte, era, porque não, humano, demasiado humano.

Afinal, como nos sentimos ao vislumbrar e sentir tudo que Guimarães Rosa escreveu ao avançarmos sobre os sertões, cerradões, campos e veredas rumo a Paracatu? E o que sentimos então ao perceber a paisagem rapidamente mudando dando lugar a monoculturas de soja e pasto, a máquinas grandes de colheita e irrigação, à riqueza e miséria do agronegócio se estendendo por todo o estado de Goiás? E ao chegar em Alto Paraíso e ver toda a magnitude da vegetação e que ali se reunia gente de todo o país e todo o mundo dispostos a criar um outro modo de vida, sustentável e tendo como base a relação com aquele ambiente que se impunha? E ao ver, desbravando o sertão do quase Tocantins, pobreza maior do que presenciamos em pleno sertão pernambucano? E quando a guia de Mambaí nos fez parar o carro para recolher, na estrada, fragmentos de casca de aroeira para uma conhecida que estava com problemas urinários? E quando reconhecemos nossas origens em Pirenópolis e Goiás, cidades históricas fundadas sobre a mesma corrida mineradora e sua herança tropeira e aristocrática? E quando vimos em Brasília que tudo aquilo, toda aquela cidade, e por extensão todo o estado, nasceram do ímpeto descobridor/conquistador de brasileiros que vieram ocupar aquele território tão desafiador e ainda inóspito, trazendo consigo força, fragilidade e contradições?

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Registros da Estrada: vastos campos no que um dia foi cerrado – plantação de algodão

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Retas, retas, retas…. gigantescas monoculturas. Cadê o cerrado?

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A divisa

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Ficamos boas horas só neste cenário: monoculturas, máquinas…

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O sol do cerrado

Sim, o cerrado pujante, ameaçado ou mesmo destruído nos acompanhou por toda nossa viagem e nos apresentou um Brasil profundo cuja força se fazia presente em intensidade em nossa alma, como só sói acontecer nos sertões.

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Catarina e nós, na estrada que liga Alto Paraíso de Goiás à Vila de São Jorge

 

Enfim, mais um roteiro realizado do jeito que a gente mais gosta de viajar: de carro (com o nosso, Catarina, é ainda melhor), parando em várias cidades, conhecendo pessoas, comidas, paisagens, estórias, histórias e vivendo novas experiências. Um roteiro cheio de afeto. Isso é viver não é mesmo?

 
 
Roteiro Cerradão Goiano ou “Viagem ao Centro do Brasil”

Realizado em: OUT/2018

Paracatu- MG – 01 noite (Village Hotel)

Alto Paraíso de Goiás- GO – 07 noites  (Airbnb)

Terra Ronca- GO- 02 noites (Pousada São Mateus)

Mambaí- GO- 02 noites (Irio Hotel)

Brasília – DF – 04 noites (Couchsurfing)

Pirenópolis – GO – 03 noites (Airbnb)

Cidade de Goiás- GO – 01 noite (Pousada Chácara da Dinda)

Goiânia- GO – 03 noites (Airbnb)

Total – 23 noites

Meio de transporte: Carro próprio – “Catarina” .

Distância total percorrida : 4.817 kms

Custo médio de hospedagem ao dia para o casal: R$81,21

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Um casal mineiro que ama viajar e conhecer novos lugares, mas acima de tudo busca experiências e novas histórias para ouvir e contar.

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Sem Resultados

  1. Foi um presentão ser o primeiro anfitrião de vocês pelo Couchsurfing. Como diz a música:
    “Andando por todos os cantos
    E pela lei natural dos encontros
    Eu deixo e recebo um tanto”
    Só recebemos energias boas de vocês, que me inspiraram a começar um blog de viagens também e a conhecer esses lugares tão incríveis aqui perto de onde moro.
    Até breve em qualquer lugar do mundo – e se for na querida Minas, preparem o queijo e o café 🙂
    Abraços!!

    • Vanessa Barreto disse:

      Nós não poderíamos ter encontrado anfitriões melhores. Todo um novo mundo de possibilidades se abriu pra gente quando fomos recebidos com tanto carinho por vocês. Saímos da casa de vocês acreditando ainda mais no ser humano, no poder das trocas, do afeto e do senso de coletivo. São estas vivências que nos permitem levantar todos os dias e acreditar que é possível sim fazer do mundo um lugar melhor! Só gratidão por esta amizade. E ficamos extremamente honrados em saber que incentivamos, de algum modo, a criação do seu blog. Quem sabe daqui a um tempo não teremos um livro hein?
      Nossa casa estará sempre aberta pra vocês. Só aviar que a gente passa um café 😀

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