Roteiro Serra & Mar, ou “Eu prefiro as curvas da estrada de Santos”

Tentamos sempre alternar a escolha da “cidade base” entre nós, e esta era a vez de Vanessa. Ela começou com umas coisas meio impossíveis, tipo juntar Belém e São Luís num mesmo roteiro, ficou sem ideia, disse para eu escolher dessa vez. (Seria a terceira seguida!) Então defini que iríamos de carro (Catarina, claro), estava meio cansado dessa coisa de aviões, aeroporto… (Sim, nos cansamos com aeroporto, e quem for belorizontino há de entender.) No fim, com uma certa sugestão, é verdade, ela acabou batendo o martelo: Paraty.

Vanessa sempre falou em Paraty, tinha um grande deslumbramento pela cidade, desses que alimentam expectativas e fantasias e fazem o percurso da vida valer a pena. Eu nunca dei muita bola para a cidade, nem sei porquê, mas ficava sonhando com as famosas trilhas de Ilha Grande, ali pertinho, formando junto com Paraty a Costa Verde fluminense. Me empolguei ainda mais quando lembrei que juntinho à Costa Verde ficava o Parque Nacional da Serra da Bocaina, o qual notei certa vez olhando despretensiosamente o mapão do Guia Quatro Rodas, e depois descobri que era tido como o “paraíso do trekking no Brasil”. Logo pensei que este poderia unir à peculiar mistura “cidade histórica + mar + mata atlântica”, tão desejada por Vanessa, mais um elemento que me seria muito caro: o contato íntimo com a natureza em trilhas e caminhadas.

Nossa viagem começaria numa quinta-feira, 07 de setembro, pleno feriado prolongado. E o objetivo primordial em qualquer viagem que façamos é escapar da grande massa de pessoas que se vê obrigada a viajar sempre nos mesmos períodos, superlotando lugares sem estrutura para receber tantas pessoas de uma vez. Sendo assim, concluímos que não seria bom ir a Paraty, Ilha Grande ou Bocaina no feriado, e saímos à procura de um lugar um pouco fora do mapa do turismo para poder gozar um feriado tranquilo e sem perrengues. Não poderia ser muito longe da base central do roteiro, para que evitássemos ter um deslocamento muito grande no meio da viagem; nem muito famoso ou grande; e como já haveria muita praia, convinha que fosse outro tipo de destino, por exemplo, algum destino histórico, cultural ou de montanha no caminho para Paraty ou Bocaina.

Quem descobriu São Francisco Xavier foi Vanessa. Ela tinha lido algo sobre a cidade numa revista da Gol e lembrava-se que o relato dizia de uma cidade charmosa, que acolhia em sua maior parte casais em busca de boas pousadas e fondue (argh!). Não era nosso tipo de turismo preferido, mas parecia tranquilo e era em meios às montanhas da Mantiqueira, um dos meus lugares preferidos no país. Pesquisando-se sobre os atrativos da cidade (tripadvisor!), qual foi minha surpresa ao ver que a cidade era repleta de trekkings para se fazer. E assim nosso roteiro se foi se consolidando no que chamaríamos de “Serra e Mar”.

Olhando o mapa, vi que São Franscisco Xavier (São Xico) estava um tanto a oeste da linha meridional de Paraty, deslocando a margem do roteiro. Isso era ruim, por um lado, afinal aumentava a distância percorrida e entre as diferentes bases. Mas era bom, por outro, pois incluía neste roteiro mais extenso um destino mais distante, permitindo que destinos mais próximos da Mantiqueira ou da Costa Verde pudessem ser conhecidos em viagens mais curtas ou de bate-e-volta. Tal fato acabou fazendo com que eu pusesse os olhos em São Sebastião, Ilhabela e Ubatuba, que estão na exata direção sul de São Xico no mapa. A possibilidade, então, de conhecer boa parte do famoso litoral norte de São Paulo, aprofundando mais na cultura regional deste estado, acabou por fazer-me, não sem antes muito pensar e repensar, adiar o desejo de conhecer Ilha Grande, que fora a motivação inicial de construção deste roteiro, depois de Paraty.

Entre São Sebastião, Ilhabela e Ubatuba a decisão foi mais fácil. Todas muito famosas, reunindo extensas áreas de Mata Atlântica muito preservada, praias paradisíacas e formações rochosas compondo um cenário deslumbrante…; mas São Sebastião e sua praia mais conhecida, Maresias, nos pareceu grande e badalada demais, então excluímos. Ubatuba tinha características muito parecidas às de Ilhabela, ao que parece, mas seu litoral muito extenso me fez pensar que ficaríamos muito tempo em trânsito. Pesquisando Ilhabela (Guia Quatro Rodas, sites locais, tripadvisor) vi que ela tinha também um grande número de opções de trekkings. Sempre ouvi falar e considerei que Ilha Grande fosse o paraíso para trilheiros em busca de contato com a natureza, mas é sempre possível que tais impressões sejam mera consequência de vieses cognitivos, de pessoas ou leituras específicas com as quais cruzamos, e talvez tivesse a impressão oposta em outras circunstâncias. E assim, então, Ilhabela entrou no roteiro Serra e Mar, colocando-nos definitivamente no caminho entre o planalto paulista e a descida da Serra do Mar em direção ao litoral, interligado, nesta região, pela rodovia Rio-Santos.

Cunha entrou por coincidência. Há algum tempo Vanessa, também na revista da Gol, lera uma reportagem de experiência de pessoas e famílias que abandonavam a vida corrida em grandes centros urbanos para empreender em lugarejos turísticos e assim desfrutar de tranquilidade e boa qualidade de vida em pequenos paraísos. Era o caso de um casal que, segundo a reportagem, mudara-se de São Paulo para montar uma pousada em Cunha, São Paulo. Nunca ouvira falar da cidade, mas acabei registrando a informação na memória e, pesquisando o mapa para construir esse roteiro, deparei-me lá com seu nome ao lado de Paraty. Considerando a temática da reportagem, algo haveria de ter lá, pensei. Havia um pequeno imprevisto – o fim de semana reservado para a cidade coincidiria com a L’etape, importante competição de ciclismo e que movimenta toda a cidade, elevando os preços das hospedagens às alturas e certamente modificando toda a dinâmica da cidade, o que seria uma pena, uma vez que gostaríamos de conhecer a cidade assim como ela era. Mas como Cunha era muito próxima à Paraty, acabamos invertendo a ordem de chegada nas cidades, com pouco acréscimo de quilometragem.

(Detalhe que, para não repetirmos o mesmo trecho de estrada duas vezes, indo até Cunha passando por Paraty e depois voltando a Paraty pela mesma estrada, resolvemos pegar outro acesso para Cunha, chegando pelo norte. Assim, saímos da Rio-Santos e tomamos a SP-125, uma forte subida da Serra do Mar que fizemos quase toda atrás de um caminhão lento, o que foi bom pois nos permitiu contemplar a charmosa estrada, cercada pela Mata Atlântica e cheia de túneis de pedra, e depois a SP-153, uma estrada estreitíssima, praticamente deserta, e imersa num meio bem rural no interior de São Paulo)

Por fim, Bocaina encerraria o roteiro. São José do Barreiro é a base mais óbvia para se conhecer o parque nacional, mas os preços das pousadas não estavam nem um pouco amigos. Acabamos por escolher Bananal, muito mais em conta, embora bem distante da entrada do parque. Por outro lado, ficaríamos muito próximos à outra borda da serra, com igual número de atrativos naturais. Pensando agora, se o objetivo fosse curtir as atrações do parque, não teria sido estratégico ficar em Bananal, pois o acesso é por uma estrada em serra, com grande aclive e sinuosidade. E como ficamos na outra borda da serra, tivemos que por mais de uma vez descer uma borda da montanha, depois subir a outra, e depois voltar tudo de novo. Uma estrada linda, mas difícil e cansativa. Por outro lado, nada compensaria a experiência que tivemos na hospedagem em Bananal, escolhida sem qualquer referência, cereja do bolo de um roteiro, como sempre, construído com muita pesquisa, sentimento e intuição.

E assim nasceu, então, o roteiro Serra e Mar – ou, As curvas da estrada de Santos, tão poeticamente ligado à canção de Erasmo e Roberto Carlos (sim, ouvimos a música diversas vezes na estrada). Na volta ainda deu tempo de dar uma esticadinha em Juiz de Fora para visitar a família de Vanessa.

Realizado em: SET/2017
São Francisco Xavier-SP – 03 noites
Ilhabela-SP – 04 noites
Cunha-SP- 03 noites
Paraty-RJ – 08 noites
Bananal-SP – 04 noites
Total – 22 noites

Meio de transporte: Carro próprio – “Catarina” .  Distância total percorrida : 2.883 Kms. Custo médio de hospedagem ao dia para o casal: R$ 113,00.

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