Visita à Fazenda dos Coqueiros, em Bananal: uma viagem ao passado

Bananal tem muitas Fazendas históricas da época do Ciclo do Café, algumas abertas à visitação. Trata-se de um programa muito procurado pelos turistas que visitam a região.

Tentamos contato via email com as Fazendas Loanda, Resgate e Coqueiros. A fazenda Loanda não oferecia visitas nos dias possíveis para nós e a Resgate solicitou que agendássemos por telefone. A dos Coqueiros foi a única que respondeu ao nosso email de modo rápido e oferecendo mais opções de dias e horários. Como nossa internet e sinal de celular onde estávamos hospedados era bastante precário não pensamos duas vezes e fechamos com a dos Coqueiros, tudo pelo email mesmo, ao custo de R$ 10,00 por pessoa.

Chegamos um pouco antes do horário marcado (mineiro nunca perde o trem, sabem como é né 😀 )  e ficamos fazendo hora. O próprio dono, Guga, veio à porta e nos disse para aguardar um pouco, muito amistoso. O dono da “nossa” pousada já nos havia dito que era amigo pessoal dele e ele de fato nos pareceu uma figura muito simpática.

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Detalhe da porta principal

A casa é belíssima, de 1855, e está muito bem preservada. No horário agendado éramos os únicos visitantes e tivemos toda atenção da nossa guia, que infelizmente não me recordo o nome.

Logo na entrada, na sala principal, ela oferece água com essência de lavanda para que lavemos nossas mãos tal como um costume da época. Segundo nossa guia a casa teve outros donos e foi vendida para a atual família que a administra e cuida da preservação do patrimônio histórico ali presente.

Percorremos os amplos salões, corredores, quartos de hóspedes. Muitos instrumentos de tortura estão exibidos, inclusive correntes para evitar a fuga dos escravos, tinha até uma bem pequena, para crianças. 🙁

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Os quartos de “visitantes” não possuíam janelas e eram chamados de alcova: o dono da casa trancava o visitante por dentro e só abria a porta pela manhã, para garantir a honra das donzelas da casa.

Ainda estão lá muito quadros da família que construiu a casa. O material histórico é muito rico e variado. São muitas mobílias e objetos da época!

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Foto: Site Fazenda dos Coqueiros

Achei uma graça quando chegamos ao quarto principal e vimos objetos do dono lá: a guia nos informou que ele mora na casa, então mesmo sendo hoje a casa uma espécie de museu aberto à visitação, o dono reside ali normalmente, e a tem como seu lar.

Anexo ao quarto há uma especie de escritório onde ficavam os registros dos escravos e as cartas de alforria. Este ambiente era o único que tinha grade na janela toda e nossa guia explicou que era uma medida de segurança dos senhores para evitarem que escravos roubassem as cartas e fugissem.

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Foto: Site da Fazenda dos Coqueiros

Muitos dos ambientes estão como construídos originalmente, como o banheiro, o moinho e a assombrosa Senzala, que fica debaixo da casa: um ambiente baixo (não é possível para um adulto  ficar de pé lá dentro), claustrofóbico, escuro, úmido e frio. Meu deu uma sensação muito ruim e foi muito marcante ter entrado lá.

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A terrível Senzala

Há um banheiro que é também um episódio à parte: trata-se de uma estrutura em madeira, com buracos para assentar-se e fazer ali as necessidades e tudo cai direto numa espécie de fossa. Os escravos eram punidos ficando amarrados ali debaixo, recebendo os excrementos de seus senhores. Impressionante a crueldade humana!

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Todo o dejeto da Fazenda seguia por este curso d’água e o escravo a ser punido era pendurado de cabeça para baixo no poço (buraco na parte superior da foto) e lá ficava recebendo os excrementos dos senhores. Foto: Chão Caipira

A Fazenda guarda muitas lendas e histórias e nossa guia nos contou que há muitos anos encontraram a ossada de uma escrava enterrada sob o assoalho da cozinha: segundo ela, a escrava, que estava grávida, teria morrido de hemorragia no dia em que a dona da casa daria uma festa. Com muita raiva de ter uma morte na casa em seu dia festivo, ela teria mandado enterrar a escrava debaixo da cozinha, como um modo de mostrar aos demais que lá era o lugar dela. Reza a lenda que esta escrava assombra a Fazenda e por lá está até hoje.

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A cozinha. Foto: Site Fazenda dos Coqueiros

Há uma estrutura muito bem montada para o receptivo turístico: uma grande sala de café, banheiros, amplo estacionamento. Mediante agendamento é possível degustar um café colonial e até mesmo passar o dia na Fazenda, num Day use.

Nossa guia nos deixou muito à vontade para que ficássemos em cada ambiente o tempo que quiséssemos. A visita é rápida, dura em média 30 a 40 minutos, dependendo do grupo.

Eu gostei bastante de ter feito a visita: o passeio é altamente rico e reflexivo e não há como não pensar no sofrimento de todos os escravos que perderam suas vidas por lá. Relembrar nossa história é uma excelente forma de refletir até mesmo sobre tudo aquilo que não queremos mais repetir. 

Informações:

A Fazenda tem um site muito completo e é possível agendar a visita guiada via email: fazendadoscoqueiros@gmail.com ou também pelo celular dos donos –Guga  (21) 99955-3251 ou Beth 99309-1030. Além de rápidos nas resposta, Beth nos mandou um email após a visita perguntando o que achamos, o que achei super delicado e atencioso!

A visita tem o custo de R$10,00 por pessoa e duração média de 30-40 minutos

É possível fazer outros programas na Fazenda, como passar o dia, tomar um café colonial, dentre outros. Tudo é previamente agendado, consultar o site para mais informações

Fazenda dos Coqueiros

Km 309 da Rodovia dos Tropeiros (antiga Rio – São Paulo), distante 6 km de Bananal e 12 km de Arapeí.

Site: http://www.fazendadoscoqueiros.com.br

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Vanessa Barreto

Psicóloga por profissão, viajante por paixão. Acredito na força dos encontros, na potência das palavras e na beleza das pequenas coisas. Viajar é um modo de existir e de se reinventar e por quê não dizer terapêutico também?

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